
Madonna virou cinqüentona, mas acaba de sair em uma nova turnê mundial, que começou com um show para 40 mil pessoas na cidade de Cardiff, no País de Gales.
Já os Rolling Stones assinaram recentemente um contrato de longo prazo com a Universal Music, além de estar preparando o lançamento de quatro novas canções em um DVD a ser lançado em novembro.
Lendo algumas reportagens sobre Madonna e Mick Jagger, é possível entender por que os dois conseguem superar o tempo e manter o sucesso em um mercado que joga grandes nomes no lixo todos os dias: ambos têm autodisciplina, dedicação, controle do que está ao redor, persistência.
Segundo uma matéria que li, Madonna é obcecada com o corpo e o trabalho, aliás, duas coisas que se complementam no caso dela. Já Jagger mantém controle rígido sobre os Rolling Stones — ao menos sobre os rumos da banda, já que seus integrantes de vez em quando pisam na jaca.
Enfim, o que eles fazem nada mais é do que o que praticamente todo mundo de sucesso duradouro faz em qualquer área, nos negócios, no mundo executivo etc.: trabalhar duro e não baixar a guarda em um só momento. É óbvio que, sem o talento que os dois têm, certamente teriam que desviar a energia para outra área.
Músico precisa ter os acordes no sangue. Mas por que tantos bons cantores e compositores não decolam também, mesmo tendo o sangue abarrotado de notas musicais? Uns poucos por azar mesmo. A maioria por não ter energia suficiente para continuar, para persistir. É o mesmo fator que diferencia o brasileiro que não dá certo no Brasil, mas que consegue vencer em um outro país, como os EUA ou a Inglaterra.
Aqui, o sujeito trabalha seis horas por dia e só pensa na hora de ir para o boteco tomar cerveja com os amigos. Lá fora, começa assentando piso como ajudante, mas dorme e acorda pensando em como fará aquilo de uma maneira mais produtiva e perfeita.
Quando consegue melhorar seu trabalho, já planeja o passo adiante, ou seja, abrir seu próprio negócio nesse ramo de construção civil. E ele realmente põe a mão na massa: em alguns anos, já terá alguns funcionários e uma renda que nunca sonharia em ter no Brasil.
Sem perceber, conseguiu manter a disciplina e a dedicação que Madonna tem em seu trabalho, com um sucesso proporcionalmente equivalente ao dela (cada um vence na vida da maneira que pode).
Gosto muito das músicas dos Rolling Stones e aprecio várias da Madonna. Aliás, ela tem se atualizado e arrebatado novas gerações. Mas o que talvez eu mais admire nesses ícones nem seja a música em si, mas a forma como lidam com os desafios. Nesse ponto específico são exemplos a serem seguidos.



Não quis aprender Sudoku. Quanto aos videogames, parei no Atari. Depois disso, não sei nada. Pensei em comprar um controle especial para jogos de carros de corrida no computador, mas desisti. Quanto ao tênis, só agora comprei uma raquete, porque preciso fazer algum exercício físico. Não vou mais me aprofundar no italiano. Por falar em estudar, tenho um livro de história da arte em casa que é uma beleza: pega desde as pinturas rupestres até a arte mais contemporânea. Deixa para lá, não vou ler todo o livro, não. Talvez dê uma olhada nos impressionistas, em alguns pintores espanhóis e só. Por falar em restringir, há tanta novidade na informática que eu poderia conhecer... Fico com algumas poucas ferramentas e olhe lá!
Entrei na fase seletiva da minha vida, mais como forma de sobrevivência do que qualquer outra coisa.
A infinidade de novidades produzidas a cada dia é demais para uma pessoa só, que ainda tem para apreciar tudo o que já foi produzido até hoje. Mas quem é que dá conta? Temos, então, três caminhos pela frente, sendo que a maioria das pessoas prefere os dois primeiros. Diante de tanta informação, conhecimento e novidade, muita gente escolhe se manter no período das trevas, sem tomar contato com nada. Não lê um livro, não se inteira sobre nada de novo na informática, não acompanha qualquer novidade e muito menos gosta de velharias. Vive tranqüilamente o dia-a-dia, como se o mundo passasse a cavalo ao lado.
Confesso que, apesar de não ser a melhor tática, também é um caminho para se sobreviver. Uma outra parcela da população é aquela que quer absorver tudo, é aquele seu amigo que sempre chega trazendo uma novidade, algo praticamente inédito na internet, um livro que só ele conhece etc. Só que não há esponja que agüente tanta coisa produzida pelos mais de 6 bilhões de seres humanos. Quem pensa em abraçar o mundo não agarra nada. É gente que se mantém na superficialidade das coisas, como se a vida fosse um acelerado videoclipe em que as informações não precisam ser aprofundadas, mas apenas tocadas rapidamente.
E a terceira classe? Posso chamar essa gente de seletiva, mas não no sentido pejorativo da palavra. Sudoku é um passatempo maravilhoso? Pode até ser, mas não tenho tanto tempo assim. Em vez de aprender o negócio e logo abandoná-lo, prefere-se nem tomar contato com ele. Selecionam-se algumas poucas coisas na vida nas quais se aprofundar. O resto é resto, infelizmente, pois só temos uma vida. Uma boa parte das coisas até que pode ser tocada apenas de forma superficial, mas nunca como uma luta inglória para estar sempre atualizado. Infelizmente, somos pequenos demais para tudo o que a humanidade produz.

Escrevo ainda de Nova York, nessa minha rotina de observar, em meio às minhas férias, os detalhes na cultura do povo mais rico do mundo. Termino meus relatos por aqui, pois senão acabo transformando a coluna em um chato diário de bordo.
Na semana passada, eu tinha falado sobre o desperdício dos americanos, o consumismo em excesso e o esgotamento dos recursos naturais. Como dito, não vejo os EUA como grandes vilões, mas sim como uma grande nação que, pelo próprio tamanho, tem suas virtudes e defeitos bem destacados. Exemplo maior disso tive durante esta semana, em que fomos de carro até Toronto, no Canadá. Ainda em NY, compramos um aparelhinho GPS e alugamos um carro. Após cinco dias de uso, tive que fazer reverência para o bem que os EUA prestaram à humanidade com a invenção desse sistema. Grudado no pára-brisa, era só digitar o endereço que nós queríamos lá no Canadá ou em qualquer lugar que fosse e a máquina nos guiava sem erros, mostrando o caminho tanto no mapa quanto pelo guia de voz (em português do Brasil, o que era melhor ainda). Se estivéssemos com fome era só procurar no GPS onde tinha uma lanchonete mais perto e ele nos direcionava.
Um supermercado, uma farmácia, uma loja de artigos esportivos? A mesma coisa. Poucas vezes na vida fiquei tão impressionado com o poder de uma máquina, que custou pouco mais de US$ 200 e ainda veio com o mapa brasileiro incluído. Palmas para os americanos, pois esse é um sistema absolutamente complexo, dependente de satélites, que só poderia ser criado com muito investimento em ciência e tecnologia. Com universidades de ponta, o país produz e vende conhecimento, o que acaba salvando em parte a economia da população consumista.
Mas há outro lado da questão. Na mesma viagem, paramos nas Cataratas do Niágara, ainda no lado americano. Após o passeio, fui comprar uma água que me custava US$ 2,70. Dei para a atendente — que era americana legítima, diga-se de passagem — uma nota de US$ 10. Porém, ao acionar a caixa registradora, ela digitou que eu tinha dado US$ 5. Acredite se quiser: isso fez com que ela entrasse em pânico, pois não sabia quanto era o troco! Teve que ir do outro lado da loja pegar uma calculadora e fazer a conta. Fiquei embasbacado. Conclusão: enquanto os EUA formam gerações apos gerações de grandes cientistas, também formam uma gigantesca massa de cidadãos comuns absolutamente dependentes das máquinas, que em hipótese alguma conseguem pensar sozinhos. Terra de extremos!
Alexandre Henry
Escritor
www.dedodeprosa.com