
Foi realizada entre os dias 18 e 23 de agosto na Universidade Federal de Uberlândia a “Primeira Mostra de Cinema Cubano: a presença da crítica social no cinema cubano atual”, promovida pela Pró-reitoria de Extensão, Cultura e Assuntos estudantis (Proex) e pela Diretoria de Culturas (Dicult). Como 2008 é o ano de comemoração dos 30 anos de federalização da UFU, a mostra foi pensada inicialmente como uma das atividades que integrariam o evento.
Tendo em vista oferecer um panorama da filmografia e dos diretores cubanos de maior importância a partir da década de 1990, a “Mostra” lançou um olhar crítico, porém construtivo, uma vez que não se tratava de denegrir o projeto de construção social, mas sim fazer um debate sobre os temas mais evidentes da sociedade cubana contemporânea.
Somando um total de sete produções (entre curtas e longas metragens premiados internacionalmente), a mostra proporcionou um espaço de debate e análise das obras selecionadas, enfatizando a realidade cubana atual. Os temas trabalhados nas obras transitam entre questões sociais, econômicas e culturais e são retratados por meio das seguintes abordagens: homossexualismo, famílias desestruturadas, migração e, principalmente, a relação do povo cubano com a estruturação da sociedade no movimento artístico, haja vista que este não está dissociada da população. A diversidade das temáticas apresentadas nas películas nos proporciona uma visão diferenciada sobre o país, uma vez que estamos condicionados a relacionar Cuba imediatamente com sua trajetória política.
As obras “Utopia” (2004, Arturo Infante), “Alicia en el pueblo de Maravillas” (1990, Daniel Días Torres), “Madagascar” (1994, Fernando Pérez), “Vídeo de família” (2001, Humberto Padrón), “La vida es silvar” (1998, Fernando Pérez), “Suíte Habana” (2003, Fernando Pérez) e “La Pared” (2006, Alejandro Gil) fizeram parte da filmografia selecionada pelo curador do evento Professor Doutor Orlando Fernández Aquino. Segundo ele, existe a intenção de realizar mostras sucessivas, uma vez que disponibiliza de material suficiente para tanto.
Destaco aqui o trabalho do diretor Fernando Pérez, que dirige três dos sete filmes exibidos na mostra. Tanto “Madagascar” quanto “La vida es silvar” (Viver é assoviar) e “Suíte Habana” trabalham o cotidiano de cidadãos cubanos que não negam o passado revolucionário de seu país, mas se confundem em relação a sonhos, perspectivas e ilusões. A professora universitária, o sapateiro, o médico, os idosos e as crianças, dentre outros protagonistas e coadjuvantes dos filmes, formam uma multiplicidade de rostos e histórias que nos remetem à multiplicidade de grupos sociais existentes no país, assim como aos inúmeros problemas que nele encontramos.
Como a Primeira Mostra de Cinema Cubano proporcionou aos participantes um espaço de informação e de discussão pautada na crítica social presente no cinema cubano atual, resta-nos aguardar a realização das mostras seguintes e lembrar que no mês de setembro Ituiutaba receberá o evento no campus da UFU/Pontal.
* Ana Carolina de Araújo e Silva - Graduanda em História pela Universidade Federal de Uberlândia e integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (Nehac). carolzita.ufu@gmail.com

Mais do que uma simples pergunta, esta frase remete a um dos maiores compositores da música popular brasileira: Dorival Caymmi, que faleceu no dia 16 de agosto deste ano. Com a sua morte, o Brasil perdeu não somente um cantor e compositor de primeira categoria, mas todo um conjunto de referências que, ao longo de mais de 70 anos, construiu de uma maneira doce e delicada a imagem de um Estado conhecido mundialmente por sua beleza, estilo de vida pacato e sincretismo religioso.
Descendente de italianos, Caymmi compôs em 1935 sua primeira música, “No Sertão”, e já aos 20 anos passou a atuar como músico e cantor nas rádios locais de Salvador, contando inclusive com um programa próprio intitulado “Caymmi e Suas Canções Praieiras”. Dono de um timbre de voz e uma maneira de tocar inconfundível, suas músicas ganharam fama no Brasil a partir da década de 40, quando foi para o Rio de Janeiro, onde se apresentou na Rádio Tupi em programas como o famoso “Dragão da Rua Larga”. Para além de canções melodiosas, Caymmi estabeleceu o que mais tarde se configuraria como a noção que paira no imaginário coletivo do Estado da Bahia: a terra do vatapá, do dendê, do candomblé, da calmaria e do mar instigante, que leva em seu leito o amor, e ao mesmo tempo resguarda em si a morte.
E isso não foi pouca coisa. A construção de uma imagem adocicada dos baianos demonstra o poder simbólico que as canções de Dorival Caymmi obtiveram na sociedade brasileira. A forma de retratar e condensar em letras suaves todo um repertório de idéias e representações sobre um lugar exprime, dentre muitas outras características, como suas músicas alcançavam uma poderosa e particular forma de representar algo do qual o autor amou toda sua vida. A maneira de falar da religiosidade, da culinária, dos hábitos cotidianos, dos amores pelo mar e pelas pessoas deixa nas letras das canções um frescor e a sensação de uma Bahia perfeita, sem as adversidades que estavam presentes no Brasil naquele momento. Um lugar quase infantil, se não fosse pela sensualidade e calor das paixões e mulheres que alimentavam os sonhos dos homens. Músicas como “O que é que a baiana tem?” interpretada na voz de Carmem Miranda fez com que o músico se tornasse conhecido mundialmente e impulsionou a carreira da Pequena Notável, sempre vestida de baiana e com o clássico cesto de frutas na cabeça.
Com mais de cem composições e cerca de 20 discos lançados no Brasil, Caymmi contribuiu de forma esplêndida para a legitimação de uma cultura, da formação de um ideal de povo sempre de bem consigo mesmo, alegre e vibrante. Dentre suas obras mais conhecidas estão “Promessa de Pescador”, “É Doce Morrer no Mar”, “Marina”, “Não Tem Solução”, “João Valentão”, “Maracangalha”, “Saudade de Itapoã”, “Doralice”, “Samba da Minha Terra”, “Lá Vem a Baiana”, “Suíte dos Pescadores”, “Sábado em Copacabana”, “Nem Eu”, “Nunca Mais”, ”Dora”, "Oração pra Mãe Menininha” – feita para a mãe de santo do terreiro que freqüentava –, “Rosa Morena”, “Eu Não Tenho Onde Morar”, “Promessa de Pescador”, “Das Rosas”, entre outras, que influenciaram grandes nomes do cenário musical brasileiro, como o compositor Tom Jobim, que chegou a dizer que “se eu pensar em música brasileira, eu vou sempre pensar em Dorival Caymmi. Ele é uma pessoa incrivelmente sensível, uma criação incrível”.
Aos 94 anos, morreu como um legítimo baiano: calmamente, em sua casa, deixando para todos nós a sensível impressão de que a Bahia, mais do que uma terra de gente feliz e cultura ampla e variada, é dona de um dos filhos mais célebres que a música nacional já teve. A Bahia tem, longe dos barulhentos trios elétricos e das passageiras músicas de axé, uma expressão máxima da potencialidade musical que elenca qualidades não só pelas temáticas que abordam o social, mas pelo amor que este local deixa em quem passa por lá. Amor pela gente, pela cultura, e principalmente, por Dorival Caymmi.

Atualmente tornou-se comum vermos nos meios de comunicação “punks” aparecerem envolvidos em confusões e brigas, principalmente contra os “carecas”. Mas é importante termos consciência da produção cultural não somente de punks, mas dos envolvidos nos festivais de música independente. Afinal se ficarmos presos às rotulações de que estes indivíduos são violentos e “esquisitos”, olharemos esses grupos sem as mínimas possibilidades de enxergar que, no seio destes, existem inúmeras manifestações artísticas.
Na cidade de São Paulo, estes festivais ganham caráter de fraternidade e inúmeras bandas e grupos musicais se apresentam com o intuito de arrecadar alimentos que depois são distribuídos aos que carecem. Na maioria dos festivais de bandas independentes que observei no mês de julho de 2008, as bandas que se apresentavam tocavam punk rock, gênero de três ou quatro notas com o ritmo rápido e marcante, letras que falam da realidade das vidas nas periferias ou então defendem posição política de esquerda com severas críticas ao neoliberalismo e à exploração do homem pelo homem. Notei que alguns grupos têm uma posição mais comunista e outros defendem ferrenhamente o anarquismo como modo de viver e organizar a vida.
Ao observar os festivais de grupos de rap, notei que as letras das bandas punks e dos rappers estão muito próximas, principalmente quando se trata do dia-a-dia, das dificuldades dos trabalhadores para levarem uma vida digna. Os organizadores desses festivais não costumam misturar os ritmos e isso inviabiliza diversos grupos que, muitas vezes, usam a música para cobrarem dos políticos e da sociedade mais ou menos a mesma coisa: consciência e reformas.
Dentro do espaço onde são realizados esses festivais, circula, além das músicas, outras formas de produção cultural, como fanzines e panfletos, uns sem maiores pretensões políticas, outros que tentam convencê-lo a adotar posições políticas.
A partir do contato de bandas nesses festivais surgem também CDs, coletâneas gravadas de forma independente com o intuito de difundir a música e a ideologia defendida por essas tribos. Tive contato com a coletânea Distorção e Resistência, que reúne mais de 10 bandas de punk rock, bandas que embora não apareçam no circuito comercial, são bem conhecidas no cenário underground não só de São Paulo, mas também de outras cidades. Dentre as bandas da coletânea destaquei Phobia, Resistência, Flicts, Juventude Maldita, Agrotóxico e Os excluídos.
Essas bandas apresentam ideologia libertária e vontade de ajuda mútua, não usam a música para ganhar dinheiro, mas como forma de conscientização da sociedade, para mostrar, para quem os ouve, que tem algo de errado no sistema e que precisa ser mudado, que não podem existir os ricos com tanta fartura e muitos pobres vivendo em total miséria sem ter sequer o que comer ou vestir.
Na cidade de Uberlândia temos o festival Jambolada, que abre espaço para bandas que ainda não são muito conhecidas mostrarem seu trabalho e ainda traz bandas com expressão nacional, mas que, ainda sim, não estão inseridas no circuito comercial. Podemos mencionar a participação da banda pernambucana Nação Zumbi na última edição do festival.
A partir desses festivais que reúnem artistas que vivem com tanta dificuldade, a grande maioria não consegue viver de sua arte. Podemos ver que a música ainda é usada como meio de conscientização e liberdade, não estamos presos ao caráter vulgar que tanto é evidenciado nos principais meios de comunicação. Os festivais independentes aparecem como resposta a essas condições do circuito comercial. Essas bandas que lutam para mostrar seu trabalho trazem consigo política e vontade de mudanças. Agora cabe a nós ouvirmos essas vozes e prestigiarmos tais músicas e festivais.
Anderson Rodrigues Neves - Graduando em História pela Universidade Federal de Uberlândia e integrante do Núcleo de Estudos em História da Arte e da Cultura (Nehac)
seven@hist.ufu.br

O ano de 2009 poderá ser, mais uma vez, um marco para a Bélgica. Isso porque o cineasta norte-americano Steven Spielberg há um bom tempo adquiriu os direitos de adaptar a história em quadrinhos “As aventuras de Tintin” e promete estrear o filme no ano que vem, com filmagens que começam neste mês de outubro.
Para alguns, a data pode não significar nada, mas para os belgas e fãs das historinhas é um ano de celebração. O evento dos 80 anos de criação de Tintin será realizado em janeiro do próximo ano e tem tudo para ocorrer em grande estilo, se levado em conta o espetáculo que foi a comemoração do centenário de seu criador no ano de 2007.
A Dreamworks já contratou o roteirista (Steven Moffat) para a trama que se desenrolará em uma trilogia. Nenhuma surpresa por se tratar de uma produção de Spielberg e Peter Jackson, os fazedores de blockbusters.
Por enquanto sabe-se que a adaptação será em computação gráfica 3D e o primeiro filme da série será “O segredo do Licorne”. O conto narra a história de uma miniatura de navio que Tintin dá a seu companheiro capitão Haddock e que, ao longo do enredo, os aventureiros vão a uma caça ao tesouro, que se encontra no verdadeiro navio.
Tintin é um personagem criado pelo cartunista belga Georges Remi, que criou um pseudônimo baseado nas últimas letras de seu nome (R e G). Logo, ficou conhecido pela alcunha que assinava suas obras: Hergé. O herói criado pelo desenhista é um repórter que desvenda mistérios e combate criminosos ao lado de seu perseverante fox-terrier, Milou. Outros personagens, como o capitão Haddock e o professor Girassol também aparecem como elementos-chave em algumas histórias.
Embora as aventuras de Tintin sejam famosas em quase todo o mundo, afinal foram traduzidas em 30 idiomas, elas não são muito conhecidas do público norte-americano. E por incrível que pareça, a polêmica que envolve os primeiros álbuns de Tintin tem uma relação próxima com o atual sentimento ianque: onipotência. As aventuras de Tintin na América e no Congo eram repletas de eurocentrismo e de um certo racismo embutido. A maneira como Hergé desenhava os negros africanos e as atitudes deles geram controvérsias até hoje.
A Inglaterra proibiu algumas publicações devido a esses problemas detectados. Mas o pretexto do desenhista está na sua condição de pertencer às terras belgas. Ou seja, na época em que ele escreveu esta história, o Congo era colônia da Bélgica. Hergé até reeditou algumas partes, mas muitas situações conflituosas ainda ficaram evidentes. Em defesa da arte, muitos alegam que a proibição da publicação de Tintin no Congo é equivocada, pois a obra representa os pensamentos de uma época. Países como a Inglaterra, EUA, Espanha, dentre outros ditos de primeiro mundo nada podem alegar, pois as atitudes deles contra muçulmanos, negros, latinos e asiáticos são mais deploráveis do que o retrato de Hergé sobre o Congo. Afinal, ele tinha desculpas, já que vivia em uma época de imperialismo territorial e não conhecia as nações sobre as quais enviava seu prezado repórter. Hoje já se conhece muito mais sobre o outro e sobre os direitos humanos e, mesmo assim, brasileiros e outros cidadãos estrangeiros continuam a ser maltratados em aeroportos, empresas e nas ruas dessas “poderosas” nações.
Apesar de todas essas polêmicas, o herói de topete ruivo e com meias por cima das calças é atração valorosa em diversos países. A virtude de Hergé está em ter criado um herói animado, com elementos pueris e discussões político-sociais interessantes. Assim, Tintin não atende apenas à preferência das crianças, mas ao bom gosto dos jovens e adultos.
Filipe Gomes de Souza Alves - Graduando em História pela Universidade Federal de Uberlândia e membro do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura(Nehac).

Que o Batman é um dos heróis mais complexos dos quadrinhos, não é segredo para ninguém. No entanto, “Batman – o Cavaleiro das Trevas” (Christopher Nolan, 2008) explora esse fator de modo nunca antes visto nos filmes da franquia. Embora muito já tenha sido dito e escrito acerca da produção, ele pode nos conduzir a uma reflexão interessante sobre a relação ordem/caos, justiça/criminalidade na sociedade atual.
Os mais familiarizados com a história de Bruce Wayne/Batman — vivido mais uma vez por Christian Bale – sabem que o herói é movido inicialmente por um desejo inexorável de vingança, que faz com que ele se torne o homem-morcego, “justiceiro” de Gotham City. Porém, Batman defende a ordem envolto pela ilegalidade, ou seja, sem o apoio formal dos sistemas legais de justiça. Nesse sentido, “Batman — o Cavaleiro das Trevas” apresenta um elemento novo por meio da figura do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), que ascende rapidamente como um incorruptível combatente do crime na cidade (criminalidade liderada por um dos maiores vilões de todos os tempos, o Coringa, interpretado de modo magistral por Heath Ledger). A atuação de Dent desvela a possibilidade de um sistema legal capaz de suprir as necessidades de justiça e de segurança pública da população, o que tornaria o “cavaleiro das trevas” dispensável.
Entretanto, a trajetória do promotor Dent na película, envolto em violentas tensões psicológicas, o conduz para o outro lado, para o caos, pois ele acaba se tornando o vilão “Duas Caras”. A derrocada de Dent, que acaba por (re)afirmar a necessidade de ação de Batman, representa, de modo emblemático, a falência do sistema legal de combate à criminalidade.
Assim, o filme nos conduz a uma reflexão sobre a eficácia do sistema legal para a manutenção da ordem. Em tempos que Cacciolas, Dantas, Pittas, dentre muitos outros, transitam nas brechas do sistema legal, e policiais, no mundo todo, matam pessoas inocentes, a ordem legal revela toda a sua fragilidade e ineficácia. O mais desalentador é que Batman é um personagem ficcional, ou seja, nada pode fazer para nos salvar do atual caos mundial.
* André Luis Bertelli Duarte - Graduando em História pela Universidade Federal de Uberlândia e integrante do Núcleo de Estudos em História da Arte e da Cultura (Nehac). andrebduarte@gmail.com