
“Entre escritores e jornalistas engajados, vale lembrar o nome do célebre René Descartes, o criador da metafísica da presença humana, o fundador do grande ‘sou porque penso’, o profeta da alma moderna, o homem que nos deu a dúvida”
E há os autores politizados. Aqueles que levantam estrondosamente a voz, chegando mesmo a rivalizar com o barulho das guerras, que continuam assolando o planeta Terra. Na esteira do escritor francês Émile Zola, crescem o movimento e a polêmica levantados pelos escritores engajados.
Zola publicou em 1898 uma carta aberta, “J’accuse”, ao então presidente francês, Félix Faure, atacando o Estado-maior do Exército e denunciando o anti-semitismo francês no que ficou conhecido como o “caso Dreyfus”. Alfred Dreyfus, um oficial francês de origem judaica, foi acusado injustamente de haver entregado à Alemanha documentos referentes à defesa nacional. Detido em 1894, condenado e deportado, Dreyfus só foi reabilitado e reintegrado ao Exército em 1906. O caso Dreyfus constituiu-se um escândalo jurídico e político que mobilizou e dividiu, na época, a opinião pública francesa.
Mas voltemos aos escritores engajados, sobretudo os contemporâneos, que não se furtam a fazer uma literatura política, transformando sua obra em libelo, seu verbo contundente em arma mortal.
No rol dos escritores engajados, que se recusam a ficar calados, apesar dos riscos que correm, encontramos Tariq Ali e Edward Said. O primeiro é autor da série “Quinteto Islâmico”, em que ora aparece enquanto anti-Bush, panfletário e barulhento, ora mais propenso a levar em conta as diferenças culturais entre os diferentes povos. Said, que nasceu em Jerusalém, é autor do livro “Orientalismo”, cujo título não deixa dúvida sobre a temática desenvolvida.
Já traduzido para o português, a editora Bertrand Brasil lançou “As vozes da Liberdade: Os Escritores Engajados do Século 19”, escrito pelo professor de História francês Michel Winock. O livro de Winock ajuda a derrubar mitos, enquanto narra a história das idéias revolucionárias de intelectuais do século 19, alguns deles muito mais desejosos de fama e glória pessoal do que imbuídos de um real engajamento político-social.
Todavia, não foram poucos os homens de letras que levantaram bandeiras autênticas contra a autoridade monárquica e eclesiástica no século 19, buscando, com o instrumento afiado da palavra, concretizar o ideal iluminista que resultou na Revolução Francesa.
Aliados aos intelectuais e homens de letras engajados e em todos os lugares e épocas, malgrado as tentativas de amordaçá-la, vale lembrar o papel da grande imprensa, escrita ou falada, também ela engajada, também ela fazendo uso recorrente do verbo incisivo para denunciar, protestar e exigir reparação contra todos os abusos do poder instituído.
Entre escritores e jornalistas engajados, vale lembrar o nome do célebre René Descartes, “o criador da metafísica da presença humana, o fundador do grande ‘sou porque penso’, o profeta da alma moderna, o homem que nos deu a dúvida, a ansiedade, a mente acima da matéria e nos ensinou a questionar, investigar e observar...” , habilitando-nos, dessa forma, a fazer a crítica e o repúdio a todo poder abusivo e autoritário, a todo cerceamento da liberdade de pensamento e de expressão.
Shyrley Pimenta
PSICÓLOGA CLÍNICA
UBERLÂNDIA (MG)
ivsant@terra.com.br
Saudades e eleições
“Assim caminhamos, potencializando esperanças e receios, mas sempre esperançosos de um mundo melhor para todos”
Mais uma primavera e como sempre revelando a sua face esplendorosa, as suas cores espetaculares e uma mensagem divina para lembrar-nos sempre que fomos colocados neste mundo para termos vidas extraordinárias. Carpe diem!
E a humanidade, na busca incessante pelo poder sobre a natureza transforma tudo e todos, não medindo as suas conseqüências. Ações e conquistas mediadas pela inteligência, mas paradoxalmente desprovidas de racionalidade, juízo e prudência.
E para todos nós, o tempo, implacável, revela-nos esperanças, temores e lembranças de tempos passados.
Sim, todos têm saudades. Nada gratuito, alienante nem saudosista. Diria uma saudade lúcida, buscamos as lembranças das nossas relações, aprendizagens e experiências baseadas em valores e princípios mais consistentes.
Que mundo é este, instável, marcado pela incerteza e volatilidade, onde o ter supera o ser; onde as pessoas se fecham e se tornam inimigas da vida comunitária; onde a imagem se torna poderosa como uma miragem insustentável, rasteira e fugaz; onde o vencer tornou-se uma obsessão a qualquer custo; onde uma tecla ‘enter’ fascina mais que um encontro, uma conversa e um olhar?
Sinto saudades de minha liberdade confiscada pelo medo e pela insegurança; de um tempo mais cadenciado, mas vivido; pela ingenuidade e alegria dos fundos de quintal, de nossas pracinhas e brincadeiras; daquelas datas tão esperadas; do ensaio da banda municipal ao adormecer, das vitrines e das pessoas nas avenidas. Sim, tenho saudades do mundo local que nos ensinava mais que este mundo globalizado e virtual; onde uma palavra, um acordo valia muito mais; onde as amizades eram mais densas; onde os vizinhos eram o nosso segundo lar.
A vida comunitária, além das escolas, estava presente em todos os espaços. Garantia uma harmonia indecifrável, mas essencial para nossa formação. Tenho saudades das escolas mais acolhedoras, mais humanas e menos curriculares e burocráticas.
Sim, temos que entender melhor a nossa história para compreender o que está acontecendo no presente. Como dependemos de uma organização social para garantia de uma vida justa e digna para todos, temos pela frente uma decisão importante para escolher aquele que, por suas decisões e ações, definirá e garantirá nossa simbiose social. Nossa cidade, salvo melhor juízo, terá que continuar a crescer e se desenvolver. O problema refere-se de que maneira, a partir de quais condições e estratégias.
E assim caminhamos, potencializando esperanças e receios, mas sempre esperançosos de um mundo melhor para todos. Não precisamos de salvadores, promessas e simulacros. Precisamos de líderes que possam contagiar e agregar diferentes setores sociais na busca do bem comum. Que saiba lidar com a diferença e que tenha como lastro e norte a lucidez de que a soma das partes, aquilo que denominam de democracia, esteja presente nas decisões que terão que ser tomadas diante de desafios e demandas.
Boa sorte, Uberlândia! Vamos juntos, pois a complexidade é imperdoável; por qualquer equívoco a partir de agora pagaremos um preço muito alto. E um alerta: temos que garantir que a racionalidade mova a política, substituindo, assim, a hipocrisia, a irresponsabilidade e os interesses escusos.
Professor Eduardo Macedo de Oliveira
http://eduardomacedo.blogspot.com/

“Politicamente, o Proer e o Proes foram criticados pela direita e pela esquerda”
Depois de décadas de inflação e após vários planos fracassados, em 1994, veio o Plano Real, que com seus fundamentos fulminou a alta acelerada de preços, cortando de maneira drástica o lucro da indústria financeira nacional. Após o Plano Real houve ameaças de quebradeira sistêmica de bancos brasileiros. Por isso, em 1995, o governo lançou o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer) e, em agosto de 1996, saiu o Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária (Proes). Esses programas pagos pelo Tesouro do Brasil enxugaram o sistema financeiro por meio de reorganizações societárias e da privatização de bancos estaduais, mas visava também, principalmente, a proteger correntistas e pequenos poupadores.
Hoje sabemos que foram programas de sucesso que cumpriram elevada função social. Politicamente, o Proer e o Proes foram criticados pela direita e pela esquerda: a direita afirmava que “a mão invisível do mercado” daria solução purificadora com a quebra dos bancos, e de seus clientes; a esquerda, liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), acusou o governo de “dar dinheiro do povo para salvar bancos e banqueiros”.
Com as mudanças econômicas da época houve a derrocada do crédito imobiliário no Brasil e a quebra de inúmeras construtoras, como a Encol. Desapareceram potências do setor privado, como os bancos Nacional, Bamerindus, Econômico, e dezenas de bancos estaduais foram saneados e privatizados
A nossa crise bancária e da construção civil levou mais de 10 anos para ser administrada. Por analogia sabemos que as dificuldades do mercado imobiliário norte-americano e a crise de confiança global existente também vão durar anos. Ainda haverá muita turbulência e volatilidade nos mercados, pois os motivos são financiamentos de alto valor, de longo prazo, feitos para clientes sub-prime, sabidamente com péssimos cadastros.
Na pátria da economia liberal, por questão dogmática, o mercado de crédito imobiliário sempre funcionou com pouca supervisão e nenhum controle do governo, o que é porta aberta para todo tipo de irresponsabilidade. Como conseqüência da crise monumental, os Estados Unidos foram obrigados a fazer um Proer ampliado. É irônico ver o Federal Reserve injetar dinheiro do contribuinte para diminuir tragédias e evitar o efeito cascata do sub-prime. Suprema ironia: entre outras decisões, o governo americano estatizou a maior seguradora privada do País, a AIG, juntamente com dois gigantes do setor hipotecário, a Fannie Mae e o Freddie Mac, que foram vitimados pela crise. E mais: na semana passada, o secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, anunciou a criação de fundo com a bagatela inicial de US$ 700 bilhões para adquirir créditos podres do mercado imobiliário, ou seja, empréstimos de alto risco não pagos pelos mutuários. Há cerca de 5 milhões de americanos com problemas para pagar o financiamento, ou que já tiveram os imóveis tomados pelos bancos. O fato é que o governo conservador de George W. Bush decidiu “privatizar lucros e socializar prejuízos”. E está a usar um “Proerzão”, legítima tecnologia brasileira. Quem diria?
Luiz Alberto Rodrigues
VICE-PRESIDENTE OPERACIONAL DO BEMGE (MG)
Histórias de Homero Santos
“Um deputado sair da sua rota para atender a um desconhecido, esperar na fila para ser atendido e até hoje atende a todos, mesmo não tendo um cargo? Eu conheço poucos como Homero Santos”
Quem nasceu nesta região sempre pensa e fala do político Homero Santos. É ele sempre citado como exemplo a ser seguido, principalmente para os que querem seguir a vida pública.
Homero hoje mora em Brasília, não disputa cargo, mas está sempre disponível para todos que necessitam de uma ajuda. Servir a todos e não apenas a alguns é um dos seus valores.
Ele vem sempre a Uberlândia, acompanha muito bem o que acontece aqui. Tive a honra de ser seu assessor, de percorrer toda a região em sua companhia, em viagens de aprendizagem. De forma simples, ele recebia todos. Se tivesse que simplificar quem é Homero, ariscaria resumir: homem simples, honesto e trabalhador, um homem bom de fato.
Advogado, professor, iniciou a vida pública como vereador em Uberlândia em 1954. Filho de Manoel dos Santos e Juvenilia Ferreira dos Santos, teve em casa o exemplo de saber e servir com simplicidade. Elegeu-se por várias vezes deputado estadual e federal. Tanto na Assembléia como na Câmara, soube ocupar com distinção e representar o Estado de Minas Gerais. Não é apenas um líder regional. Participou da Constituinte, renunciou ao cargo de Deputado Federal em 199l para assumir o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União.
Não dá para registrar neste espaço todas as suas realizações e condecorações, mas dá para falar um pouco de atributos que têm faltado muito à classe política de forma geral, que é indispensável ao homem público, como lealdade.
Por inúmeras vezes, presenciamos prefeitos procurarem Homero dizendo que o líder local de Homero havia perdido a eleição para ele e que agora ele queria ser o líder do deputado. Homero respondia com educação e no seu jeito mineiro: “Você pode contar comigo como prefeito, mas o meu líder na cidade continua sendo o que perdeu a eleição. Ele perdeu a eleição, mas não o companheiro”.
Atendia a todos. Certa vez um estudante havia perdido a data da matrícula e corria o risco de perder o semestre, estávamos indo para o aeroporto e fomos abordados na rua pelo pai do aluno, que pediu para resolver o problema do filho. Ele ligou no aeroporto e o avião estava atrasado. Homero foi à reitoria, ficou sentado esperando o reitor atender e, quando este viu que era o deputado Homero, questionou: você não se anunciou? Ele respondeu: “Quando chegamos havia uma senhora esperando eu não podia usar o meu cargo para passar na frente dela, mas estou aqui para pedir e resolver o problema de um aluno que perdeu a matrícula e vai ser prejudicado se perder este semestre”. O reitor atendeu de pronto. Eu perguntei: “O senhor conhece este aluno e ou o pai dele?”. Homero respondeu que não, mas como homem público tinha todo interesse em atender.
Um deputado sair da sua rota para atender a um desconhecido, esperar na fila para ser atendido e até hoje atende a todos, mesmo não tendo um cargo? Eu conheço poucos como Homero Santos.
Hélio Mendes
PROF. E CONSULTOR DE ESTRATÉGIA E GESTÃO
latino@institutolatino.com.br

“Enquanto esse velho trem/ atravessa o pantanal/.../rumo a Santa Cruz / de La Sierra” (Cancioneiro popular)
Saramago escreveu e Fernando Meireles levou para a telona, algo que ao longo da história somos protagonistas, muitas vezes testemunhas: a cegueira coletiva a depender dos olhos de poucos. Dar esse poder a alguém, de enxergar por nós é complicado. Porém situações, doenças coletivas da alma e do corpo nos levam a isso. Fome, carências, ilusão por prestígio e dinheiro são algumas delas. O fascínio por lideranças carismáticas e fascistas é outra. Enquanto Wall Street se desmancha na esteira da quebra do quarto maior banco de investimento americano - o Lehmon Brothers, a marcha da insensatez bolivariana de Evo Morales insuflado por Chavez, divide a Bolívia em duas nações em guerra: a dos índios cocaleiros pobres contra as províncias que produzem a maior parte do PIB daquele país. FHC afirmou em entrevista recente, que o maior desafio de um governante é liderar de forma a não dividir um povo em facções que possam brigar entre si, causando destruição de culturas e ou atrasos no desenvolvimento de países e do mundo. Concordo plenamente. A falta de sabedoria de alguns líderes americanos do passado levou à tensão contra o mundo islâmico, que derrubou as torres gêmeas há sete anos. A falta de visão e despreparo de Jango para assumir o espólio de Vargas nos legaram 21 anos de escuridão na ditadura.
Apesar de constantes avisos de especialistas sobre a política monetária frouxa do FED - Banco Central Americano, sob os estertores do mandato de Alan Greespean, construiu-se um castelo de cartas de créditos podres do financiamento imobiliário chamado subprime, que acaba de causar a maior crise financeira desde 1929, assolando os EUA, Europa e Ásia. Outras bolhas aconteceram. Quem não se lembra da insustentável leveza da “nova economia” das ponto com? Ou, recorrendo aos escritos de John Galbraith, da crise das tulipas na Holanda do século 17, quando uma tulipa vermelha chegou a valer 17 mil euros em valores de hoje?
Os extremismos são os mesmos, incorporados que foram por líderes de pouca visão, levaram milhares de cegos ao desespero e à morte por suicídio. O próprio Galbraith afirmou que a fé no mercado livre é algo irracional, o que é validado pela segunda feira negra - 15/09/2008 - que obrigou o FED a injetar no mercado 700 bilhões de dólares - quase o PIB do Brasil e ainda assim não resolver a crise. Socializou-se o prejuízo de banqueiros especuladores alavancados (o L. Brothers tinha US$ 20 bi em ativos e US0 bi em obrigações), que sempre pregaram remédios amargos para os países pobres e em desenvolvimento que procuravam suas casas de crédito. A fé cega no mercado está morta. Daí, outro líder aqui no Brasil vem a público dizer aos cegos da planície que nada acontecerá conosco, que somos uma ilha de prosperidade, tudo para eleger seus candidatos a prefeito? Hipócrita! Temos de colocar as barbas de molho. Acender todas as luzes amarelas. Cortar os excessivos gastos públicos – segundo o IPEA de cada ‘três reais’ arrecadados só ‘um’ é aplicado em seus fins. E rezar. Rezar muito para que a China não seja contaminada pela crise a ponto de deixar de comprar nossas commodities. Finalizo acreditando que ao compartilhar com vocês leitores, esta análise, deixamos todos de ser candidatos à cegueira que nos espreita.
José Carlos Nunes Barreto
Professor doutor
debatef@debatef.com.br
Mão na consciência
“Habita no Homem uma força que o solicita a superar todos os sistemas e todas as ideologias” (Papa Paulo VI).
O crescente interesse da sociedade uberlandense pelos assuntos sociais (e como um reflexo daquele que é, também, o da sociedade brasileira) tem-se manifestado por meio da imprensa e por ações que a cada dia brotam e prosperam por toda essa cidade e Município. Todavia, é à próxima “geração” de vereadores que, por excelência, caberá intervir nas estruturas desse Município tendo em vista imprimir um caráter ainda mais humano em sua base. Eleitos, imagino que caberá a cada um deles examinar o que juntos deverão fazer e eximindo-se, elegante e eticamente, de atrair sobre aqueles a quem deverão substituir, a responsabilidade pela não satisfação de considerável parcela da população em relação às atividades da Câmara Municipal nos últimos anos. Portanto, nada de olhar para trás, pelo contrário, deverão ter uma visão otimista, mirando sempre e mais para frente! Cada eleito procure avaliar o seu quinhão de responsabilidade em muito daquilo que aflige a sociedade uberlandense, tratando de realizar ao menos a metade daquilo que vem prometendo durante a campanha; o que, certamente, redundará em mais eficaz contribuição para o bem comum do que, evidentemente, ficar postergando a realização de promessas impossíveis de serem cumpridas. Creio, humildemente, que essa medida preservará de intolerância ou sectarismo os eleitores e nos alentará a esperança. Em meio a tantas (estrambóticas e mirabolantes) promessas disso e daquilo, feitas a cada nova oportunidade de falarem ao público, alguns candidatos, sabiamente, terminam por incitar os eleitores a recorrer à sua consciência de modo a evitar que comprometam o seu voto com “colaborações condicionais” e contrárias aos princípios da autêntica democracia. Ora! As responsabilidades políticas são de suma importância e têm de ser racionalmente divididas entre candidatos, eleitores e partidos políticos.
Esses últimos, então, devem atuar de maneira a fazer refletir as exigências concretas da sociedade uberlandense quanto às suas reais necessidades e no que diz respeito ao social, à saúde, à habitação, ao esporte e à segurança pública. Desculpem-me os leitores pela redundância, mas acredito que todos temos de colaborar, generosamente, pela construção de mais uma era de esperança e realizações para todos nós. Façamos isso, sim, de modo a darmos a nossa contribuição caracterizada e inconfundível à nossa cidade e ao nosso município: votar com uma das mãos nos botões da urna eletrônica, enquanto a outra pousa em nossa consciência. E é sempre muito bom lembrarmos que o nosso poder em relação ao desenvolvimento de Uberlândia, reside, muitas vezes, na manifestação de firmeza e determinação no momento do voto. A nossa vontade, o nosso desejo consciente será um fator determinante para realizações de grande vulto em nosso benefício. Assim, quanto mais determinados e criteriosos apresentarmo-nos diante da urna, mais poderosa será a influência dela emanada.
Gustavo Hoffay
Agente Social
Uberlândia (MG)

“O plantio de matéria-prima para biocombustíveis e o seu impacto no preço dos alimentos”
No dia 21/6/08, por ocasião de um evento no Assentamento Nova Jubran, em Santa Vitória (MG), apesar do burburinho das festividades, o engenheiro agrônomo José Silva Soares, presidente da Emater (MG), recebeu-nos como representantes do Instituto Volta ao Campo (IVC) para uma conversa que durou aproximadamente 20 minutos. Malgrado a exigüidade do tempo, foi possível não apenas abordarmos o assunto que nos levou até ele, quanto ouvir suas judiciosas considerações sobre algo que ainda não perdeu força e sobre o que já escrevemos, mas que é preciso reforçar com os argumentos do ilustre presidente. Referimo-nos ao plantio de matéria-prima para biocombustíveis e o seu impacto no preço dos alimentos.
Enfatizou que grande parte da produção de alimentos que consumimos vem da agricultura familiar e este é um momento de grandes oportunidades para esse segmento da agricultura nacional. Entende que o produtor rural da pequena propriedade, aí inseridos os assentados da reforma agrária que têm com a crise dos alimentos a grande oportunidade de produzir mais e, como conseqüência, alcançar mais renda e melhorar sua qualidade de vida de forma sustentável. Continuando em sua linha de raciocínio, José Silva aduziu que a Emater-MG tem trabalhado em várias linhas de ações, mas que a principal delas é a de superação da fome. Como se percebeu pela exposição do presidente José Silva, além de garantir a segurança alimentar, cria-se a possibilidade de aumento de renda a muitas famílias que produzem não apenas para a própria subsistência, como também para a venda de excedentes gerados. Referiu-se a seguir às críticas internacionais à produção de biocombustíveis de produtos agrícolas que querem fazer crer que este é um dos motivos do aumento, em níveis internacionais, dos preços dos alimentos. Aliás, nesse sentido, é interessante reproduzir trecho de um artigo do presidente José Silva publicado no jornal “Estado de Minas” e que diz o seguinte:
“Há críticas internacionais à produção de biocombustíveis a partir de produtos agrícolas. No Brasil, essa discussão não faz nenhum sentido, enquanto os Estados Unidos produzem etanol a partir do milho, que é utilizado largamente na produção de alimentos, no Brasil, só temos 0,98% da área de produção de grãos ocupada pela cultura de cana-de-açúcar destinada ao etanol. Entretanto, é preciso deixar claro que é justo discutir os critérios da produção dos biocombustíveis para que não haja redução da produção dos alimentos. E isso a extensão rural está fazendo. Em Minas, encaramos a produção de biodiesel, no norte do Estado, como mais uma possibilidade dos produtores e temos estimulado a cultura consorciada de oleaginosas, com o milho, o feijão e amendoim. Em momento algum, vamos orientá-los para optarem pela monocultura, por ser danosa, tanto do ponto de vista ambiental, pois esgota o solo e reduz a biodiversidade, quanto do econômico, visto que basta uma oscilação no mercado para comprometer toda uma cadeia produtiva. A monocultura, se extensiva, pode afugentar a mão-de-obra no campo e levar as populações rurais a buscar abrigo nas cidades. E sabemos o custo social disso”.
É isso aí, caros leitores. O resto é baboseira de quem não entende do assunto ou é movido por outros interesses que não os da população brasileira de modo geral e dos agricultores familiares de modo especial.
José C. Martelli
Prof. e advogado agrarista
José Soares de Aquino
Agrimensor — ambos membros do Instituto Volta ao Campo (IVC)
Primavera na janela
“Apesar dessa aparente prisão virtual em que nos vemos, aqui estamos, aguardando o trinado das cigarras”
O tempo que não tem começo nem fim (mas a gente – sim!) oferece uma janela iluminada e magnífica: o presente, o agora. Não é mera alegoria não, pode ser qualquer janela da sua casa que permita ver além dos limites da casa. Abra-a no limiar da manhã e contemple, com olhos calmos e o espírito arguto, o horizonte sinuoso de Uberlândia. Respire devagar e fundo entre lembranças difusas e sinta-se sobriamente feliz: estamos na primavera, estação que recomenda não se exceder em nada; afinal, sobrevivemos de um inverno que endureceu a paisagem. Torrões de terra esboroando ao mais leve pisar, folhas ressequidas sobre um áspero jardim, pássaros entristecidos, soro fisiológico no nariz e creme hidratante na pele.
Bem-vinda é a primavera que se descortina no presente, no agora. Se eu fosse você, não me deixaria enredar demasiadamente no passado, pura abstração consubstanciada na memória. Se eu fosse você, acalentaria em um lado do coração o futuro, abstração consubstanciada na esperança. O agora é o tempo certo, por isso se chama presente, é uma dádiva; aproveite, abra a janela e contemple. Você dirá que não se pode viver só disso. Certo. A contemplação da primavera não é a viagem, é a parada de alguns minutos para desintoxicação do corpo e da mente.
Há pouco estávamos vivendo o final da estação de inverno. Lembro-me de que o silêncio reinante naquela manhã tórrida sugeriu que o coração se abrisse. Vaga metáfora que pode abrigar qualquer sentimento ou estado de espírito. Quase desliguei o computador para me acomodar nos giros da Fórmula Um, mas não. Segui tecendo esta colcha de idéias circulares; não queria chegar a lugar algum, só transformar em palavras a paisagem triste do momento e pensar na primavera que viria. Sofremos por igual a baixa umidade do ar e a torrente de informação que flui da TV, da internet e da roda de amigos. Abrir o coração é preciso, sim, mas as circunstâncias vão contra porque o mundo está cada vez mais programado. Somos alvos de um show business globalizado e incessante que não deixa espaço para pensar, quanto mais para abrir o coração. Há excesso de campeonatos.
Apesar dessa aparente prisão virtual em que nos vemos, aqui estamos, aguardando o trinado das cigarras. As cigarras auguram, todo ano por essa época, um novo tempo que só será novo se assim o entendermos. É preciso alargar o espectro do tempo para não vermos a vida passar tão depressa. Antigamente falava-se do ano vindouro como algo longínquo. Hoje, cada hora conta, cada minuto parece fatal. A pressa só serve para aumentar a pressa. O olho humano está cada vez mais aguçado. Já se distingue o centésimo de segundo. Enquanto isso, uma rosa discernida dentre tantas está dando um monumental espetáculo de beleza no jardim que quase ninguém vê.
Abra sua janela e contemple. Saúde a primavera, ouça as cigarras e se deixe enredar por coisas semelhantes, se isto, claro, não lhe parecer uma perda de tempo.
José Carlos da Silva
Escritor
Uberlândia (MG)
jkarllos@uol.com.br

“Vamos tentar uma assepsia dos políticos no voto”
Paradoxalmente, tudo de bom que temos no Brasil devemos aos políticos: infra-estrutura urbana (luz, esgoto, comunicações, escolas e hospitais públicos), rodovias, ferrovias, portos, aeroportos. Tudo de ruim também vem deles: o conchavo, a negociata, a filhotagem, o filhotismo, a corrupção. O Brasil tem uma população menor que a dos Estados Unidos, mas possui quase o dobro de congressistas. Não podemos conviver com cerca de 600 deles. O custo-benefício é altíssimo pela baixa qualidade de senadores e deputados. Quem já teve Bilac Pinto, Milton Campos, Pedro Aleixo, Paulo Brossard, agora tem que se contentar com congressistas ferramenteiros, sargentos etc. Não é preconceito contra os que não têm instrução ou preparo para tal exercício. Todos têm direito à cidadania, bem como aos direitos políticos. Entretanto, para fazer leis há que ter a necessária bagagem intelecto-cultural, pois a técnica legislativa não pode ficar nas mãos de assessores. O nosso Congresso, principalmente a partir da era Lula, é um poço de mediocridades, salvando-se raríssimas exceções. O Senado é a escola do elogio mútuo. Tivemos até o Severino!
Há políticos que abdicam de princípios em troca de cacife eleitoral. Vejamos Pedro Simon, um dos mais íntegros e respeitáveis do País: marginais do MST invadiram uma fazenda em Minas Gerais, cortaram a cerca, invadiram a sede, consumiram gêneros e bebidas, violaram a suíte do casal, danificaram utensílios e maquinários, abateram cabeças de gado, brutalizaram serviçais.
A PM mineira cumprindo mandado de reintegração de posse, ao fazê-lo, usou de força necessária algemando alguns, subjugando recalcitrantes com alguns safanões. O ilustre ex-governador gaúcho, um homem de bem, mas político brasileiro, viu no episódio uma oportunidade para capitalizar votos petistas. Foi à tribuna do Senado e fez acerbas críticas à ação da PM Mineira.
Cremos que naquele momento ele tinha pretensão de ser escolhido pelo PMDB como futuro candidato a presidente, talvez com o apoio do PT. É assim que agem os políticos por nós eleitos. E vejam que falamos de uma reserva moral da nação. Porém, infelizmente, é esta a regra do jogo político brasileiro.
Por isso, muitas pessoas de bem, como Antônio Ermírio de Moraes, não tiveram nem terão vez nas escolhas partidárias. Lembremos o deputado federal Fleury. Ele é oriundo do Ministério Público de São Paulo, uma das instituições mais respeitáveis do País. Para crescer na política teve de agregar-se a Orestes Quércia, figura política detestada da política brasileira. E ele, Luiz Antônio Fleury, terminou como liderado de Roberto Jefferson. Triste destino. Tal como a volta de ACM, Barbalho, Arruda e Genoíno, também foi um tapa na cara da auto-estima dos brasileiros.
Severino, mercê de Deus, não voltou. Todos os devotos de padre Cícero Romão Batista e frei Damião votaram nele. Não é preconceito. Os nordestinos nos deram os gloriosos Gonçalves Dias, Tobias Barreto, Rui Barbosa, João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freire e outros. Bem que poderiam nos ter poupado de Sarney, Calheiros, Barbalho e quejandos. Um ex-deputado nordestino, cassado em 1964, disse: “O grande problema do Brasil é cultural, não a fome”. O atual presidente fala em “fome zero” e compra um avião de não sei quantos milhões de dólares! Vamos tentar uma assepsia dos políticos no voto. Conseguiremos? Platão, Thomas Morus e Thomaso Canpanella, em “A República”, “Utopia” e “Cidade do Sol”, respectivamente, disseram que sim, é possível!
Aldon Taglialegna
Promotor Público Aposentado
Uberlândia (MG)
Nas curvas da política
“O político é o saco de pancadas para todas as angústias e frustrações do cidadão”
Muito bom o artigo da psicóloga clínica Leiliane Bernardes Gebrim em que faz três indagações: o que é a política?; a política é comércio ou responsabilidade social?; o que você espera de um político?.
No primeiro tópico, Leiliane diz que “em época de eleição, a sociedade se agita e é agitada por um sem-número de partidos políticos e candidatos que despejam promessas, conflitos, debates e ofensas onde deveriam ser semeados diálogos, propostas, projetos e análises críticas”.
Louvo esta percepção sobre o discorrer de uma campanha eleitoral, mas não sei como responder por mim mesmo o que é a política. Se a política é comércio ou responsabilidade social... Bem, não creio que seja comércio, mas não discordo de que ela possa ser um meio “especialíssimo” de vida, quando o político estiver em desacordo de consciência com a honradez, com a honestidade e o dever a ser cumprido, ou quando se esgueirando do trabalho que lhe compete na qualidade de representante da sociedade como um todo.
O que você espera de um político? Ora, para a comunidade onde vivo, para o meu Estado e minha pátria, espero tudo de melhor. Para mim, que malhei no trabalho para alcançar com dignidade estes meus 80 anos de vida com independência, espero de um agente político tudo aquilo que nunca esperei da parte de presidentes, senadores, deputados, prefeitos e vereadores. Mas uma coisa é certa: sou cidadão eleitor desde a queda da ditadura Vargas e nunca deixei de marcar presença às urnas eleitorais.
Ainda sou um eleitor conservador, daqueles que vestem ternos e colocam gravatas nos dias de eleições; daqueles que não aceitam caronas; daqueles que vão aos locais de votação justamente pelo dever cívico e responsável.
Nestes tempos um tanto quanto perturbados, vemos que a política não anda sendo bem-vista como antigamente e isto vem de um falso sentido popular que não tem sabido separar o joio do trigo, pois a política em si seria perfeita se imperfeitos não fossem muitos de seus agentes eleitorais.
Leio que a política é a ciência do governo dos povos e dos negócios públicos. Daí sua maneira hábil de agir e tratar; o político, este é aquele que trata de política, mas que nem sempre age habilmente, cortesmente, polidamente sem se deixar corromper... A política, se atentarmos bem para os resultados das críticas contundentes que pesam sobre ela, talvez possamos até com certa facilidade reconhecê-la como vítima de tantas e quantas sejam as interpretações severas e irrelevantes. Mas, no grau da modernidade em que chegamos, pode-se dizer que tudo isso faz parte...
Lembro-me de uma bela tirada do ex-senador Virgílio Távora, que passo a contar. Ele disse: “A política é a pior das amantes, porque é a mais cara, a mais possessiva e a mais infiel. E o pior, o político é o saco de pancadas para todas as angústias e frustrações do cidadão. Todo político é um procurador de partes no singular e no plural. O mais grave é que dele se pede tudo. Quando alguém procurou um deputado com um pleito, o deputado examinando o pleito, disse: ‘Meu amigo, o que você me pede aqui é ilegal!...’. E o eleitor retrucou: ‘Ora, deputado, se fosse legal não precisaria de deputado’”.
Alberto de Oliveira
Jornalista
Uberlândia (MG)

“A civilização começa no momento em que o esporte começa.” (Nikos Kazantzakis, pensador grego)
Como bilhões de viventes em todos os cantos do mundo, que vêem no esporte importante instrumento civilizatório, acompanhei com euforia parte dos Jogos Olímpicos. Interrompi o repousante sono da madrugada um tantão de vezes pra acompanhar os atletas, sobretudo brasileiros, em ação. Vibrei com as vitórias e sofri com os revezes.
De quebra, fui fazendo anotações que me pareceram bastante pertinentes a respeito dos critérios utilizados:
nas premiações das provas;
na composição das representações nacionais;
na definição das modalidades olímpicas. Comecemos pelo último item. Não dá para entender os motivos pelos quais futebol de praia, xadrez, futebol de quadra e peteca não foram reconhecidos, até aqui, no conjunto das disputas. Ainda mais considerando o número significativo de esportes despojados de emoção que integram a programação, com direito à distribuição das cobiçadas medalhas. Também parece destituída de qualquer sentido a norma que fixa idade limite para atletas do futebol masculino. Se é para assegurar a presença de “amadores”, tenham a santa paciência, isso não cola mais.
Nem no futebol nem noutras modalidades. Acho, também, que os jogos ganhariam muito com a instituição de mais medalhas. No mínimo, para competidores colocados em quarto e quinto lugares. Quinto lugar numa maratona, cá pra nós, é façanha e tanto. Uma coisa que também não pega bem é essa permissão para atletas nascidos num determinado país participarem das competições carregando outras bandeiras.
O processo de naturalização invocado, nada de tapar o sol com peneira, é fajuto. Veja-se o caso da Jamaica, que conquistou na China mais medalhas de ouro que o Brasil. Só recentemente vem podendo se afirmar como potência em corridas. Pratrasmente, costumava ganhar também as provas. Mas as medalhas, em razão da “nacionalidade postiça”, iam parar na coleção de troféus dos outros. Coisa mais do que discrepante do ideal olímpico.
O cidadão comum nutre dose avultada de desconfiança com relação a aplicações na Bolsa. Considera tudo, nesses domínios, muito enigmático, distanciado demais da conta do entendimento das ruas.
Em seu modo pragmático de ver e definir as coisas do cotidiano, imagina que os bastidores do indestrincável negócio de ações sejam exclusivamente freqüentados por especialistas em manipulações de dados e números. A serviço, naturalmente, de megaespeculadores.
A regência do sobe e desce das cotações seria ditada, dentro dessa linha de raciocínio, por jogo de conveniências ao qual a grande maioria não tem sequer acesso, quanto mais cacife pra bancar.
O espesso invólucro de mistério que recobre as atividades na Bolsa leva os cidadãos a se intrigar, a se espantar, por exemplo, com a queda de ações de uma empresa como a Petrobras, que vive, por razões mais do que óbvias, um instante incomparável no plano das descobertas e realizações. Ou de uma empresa em contínua e triunfante expansão, como a Vale.
Fica difícil pacas para o homem comum entender a linguagem que se fala no mercado de ações.
César Vanucci
Jornalista (cantonius@click21.com.br)
Los pájaros vuelan...
“Eu vi a pata já sem seus sonhos ou patinhos, nadando devagar e sem rumo, enquanto outras corriam felizes com seus filhinhos. Eu vi ali a minha vida, a sua vida, a vida de ilusões que nós todos vivemos”
... é, os pássaros voam, disse-me um grande amigo paraguaio, num momento de sofrimento. Guardei a frase que me pareceu triste, mas ela permanece teimosa pela minha vida afora.
Minha não, porque ela vale para nós todos, pássaros e gentes. Nesta semana assisti naquele canal que mostra a vida animal a uma beleza de comprovação.
O filme era sobre a migração dos pássaros nascidos numa linda savana africana, um mundão de planície alagada. Mostrou uma pata selvagem andando à frente de seus 12 patinhos, uma tranqüilidade de paz e beleza.
Uma pena, contou o comentarista. Daqui a uns quatro meses os patinhos estarão voando, alguns metros e tombos no começo, daí a pouco vão decolar para a sua vida própria e definitiva. A pata-mãe? Ficará para trás, a migração dos jovens é definitiva, estão desmamados, não voltarão para ela.
Os pássaros voam, tem seus sonhos pessoais, o resto fica para trás. A pata, seu ninho, seu amor e seu sonho dos patinhos... estará esquecida e desconhecida. Que arranje uma nova vida e companheiro, um novo ninho e outros patinhos, um sonho inútil, porque os pássaros voam... e ela ficará novamente sozinha.
Porque e por onde esta crônica que parece triste? Bem, meus caros, vou chegando à idade da pata velha, iludida, apesar de romântica. Apenas, como o ser humano é racional, deixo-lhes a mensagem que a vida nos ensina e nasce na savana da nossa vida.
É impossível não sofrer com o vôo dos pássaros, símbolos das nossas ilusões. Mas é possível, é necessário esperar e sonhar com a felicidade, acreditar que ela é possível, ainda que passageira e voadora.
Do contrário, a vida não teria sentido. Ou seja, no meu humilde pensar e experiência, acompanhar Fernando Pessoa dizer que tudo vale a pena, se a alma não é pequena.
Você vai sofrer, amigo e amiga, quando chegarem as decepções e as ilusões voarem. Nada voltará atrás. Eu vi a pata já sem seus sonhos ou patinhos, nadando devagar e sem rumo, enquanto outras corriam felizes com seus filhinhos.
Eu vi ali a minha vida, a sua vida, a vida de ilusões que nós todos vivemos. Existe um perigo grande, um pássaro negro e predador que não voa, está sempre ao nosso lado: a depressão funesta da infelicidade. O mundo consome milhões de antidepressivos, antiestresses, psicólogos e livros de auto ajuda – tudo por via externa, talvez por vergonha ou medo de olhar para dentro.
E que venha sofrimento, angústia, doenças graves da pequena depressão até o definitivo câncer em algum lugar.
Escutem comigo, patos e patas em sofrimento, Roberto Carlos cantar “Emoções”, dizendo ao final — se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi...
João Gilberto Rodrigues da Cunha
Médico e escritor
Uberaba (MG)

“Desafiar a vida de forma febril ou mediana não muda o nosso destino: jamais escaparemos do transitório, da fugacidade, do pó”
Ele se atirou, de cabeça, no jogo insensato de escrever. Fazia literatura, por assim dizer, em alta voltagem: com engenho, arte, mordacidade e um humor sutilíssimo. Estamos falando do escritor austríaco, nascido na Holanda, Thomas Bernhard (1931-1989).
É de Bernhard o inquietante romance “O Náufrago”, que a Companhia das Letras publicou em 2006, em segunda edição. Trata-se de um romance-memória, que, como outros romances do escritor, amplia as fronteiras e os limites do próprio autor e da arte de fazer ficção. Partindo de um radicalismo, quase incendiário, Bernhard reduz a pó o conformismo, a estagnação, o marasmo, as fórmulas, hoje tão discutíveis, do fazer literário. Sem piedade, “O Náufrago”, bem como os demais livros do autor, condena o pensamento institucionalizado que, para ele, corrói toda espécie de fruição, de esperança, de humanismo, que a vida poderia nos proporcionar.
Um dos grandes ficcionistas da língua alemã, Bernhard fez sua estréia literária em 1963 com o romance “Gelo”, que se afasta do modismo atual dos chamados romances urbanos, ou sociais. Nos livros de Bernhard, afirma o também escritor Wilson Bueno, não há espaço para o socialismo barato: sem piedade, o autor “pulveriza socialismos e catolicismos, nazismos e filosofismos”, venham eles de onde vierem, tenham eles a origem que tiverem, da mais nobre à mais plebéia.
A literatura de Bernhard, continua Bueno, não se destina a embalar nossas noites insones ou a servir de preâmbulo ao nosso fatigado repouso. Antes, sua literatura nos desaloja, inquieta, desagrega, por aquilo que diz, mas, sobretudo, por aquilo que cala. Por tudo o que deixa de dizer, Bernhard nos coloca frente a frente com aquilo que em nós, humanos, é irremediável, é da ordem do marginal, da exclusão.
Em “O Náufrago”, o narrador retorna à Áustria, depois de um tempo considerável, para o enterro de Wertheimer, que se matara na Suíça. Eles foram colegas na Mozarteum, a célebre academia de música de Salzburgo. São as elucubrações desse narrador que abrem a chance, ao narrador e a Wertheimer, uma chance que também é nossa, de tocar feridas antigas, não cicatrizadas, de forma metódica, cruel, inexorável.
No livro, o náufrago é o narrador, e, especialmente, Wertheimer, o suicida. Ambos vêem o sentido da vida se esboroar, juntamente com seus projetos musicais. O narrador do livro parece nos apontar o lado extravagante e corrosivo da genialidade, que pode fulminar impiedosamente quem se aproxime, sem cuidado, de suas sutis armadilhas.
“O Náufrago”, de Thomas Bernhard, reduz a pó nossas boas intenções. E não adianta espernear ou alimentar culpas. Nosso insucesso repousa mesmo é no fato de sermos feitos de matéria precária, perecível, de termos nascidos já grávidos da morte. Desafiar a vida de forma febril ou mediana não muda o nosso destino: jamais escaparemos do transitório, da fugacidade, do pó. A prosa de Bernhard faz emudecer o coro dos contentes, dos conformados, dos conformistas. A saída é uma só: dar de cara, olho no olho, com aquilo que em nós é irremediável: nosso fugaz e transitório destino. E agora, leitor amigo, dá para dormir com um “barulho” desses?!...
Shyrley Pimenta
Psicóloga clínica
Uberlândia (MG)
ivsant@terra.com.br
Processo político no Brasil
“Qualquer país que queira ter uma política forte deve impreterivelmente buscá-la”
As eleições deveriam seguir a essência, buscar crescimento, evolução. Com o progresso vem o almejo das pretensões, o aumento das responsabilidades e o foco na melhor qualidade de vida. Qual nação não quer ser forte politicamente, atingir os objetivos e abrir os horizontes para o mundo globalizado? O Brasil. Qualquer país que queira ter uma política forte deve impreterivelmente buscá-la. Lic. Néstor Martínez faz uma alusão sobre a evolução da espécie humana que pode servir de bússola: “Só a indiferença pode nos fazer ficar insensíveis a uma exceção tão clamorosa. De repente, aparece sobre a face do planeta um animal que é capaz de pensar e decidir, de planejar, de prever o futuro, de estudar os mecanismos naturais para imitá-los em suas invenções ou para aproveitar-se dos mesmos, de refletir sobre si mesmo e o que o rodeia e perguntar sobre sua própria origem e fim, de reconhecer sujeito a leis morais que não estão escritas em nenhuma parte, mas que são mais fortes que as leis escritas, de criar civilizações, impérios, artes, ciências, religiões etc.” Portanto, a evolução política é hoje um dos principais temas dos debates no mundo. O que podemos fazer para mudar a política brasileira?
Quando serão respeitados os direitos do cidadão, ser efetivada as necessidades mais prementes em prol do povo para o povo em sustentação ao desenvolvimento, a evolução. O que dizermos da evolução da opinião? Do prazer de opinarmos para o bem da nossa sociedade. Não se pode simplesmente aceitar que as coisas aconteçam como se fosse esse o destino.
O poder de raciocinar, de se organizar e de exigir consistência política, faz com que acreditemos que a espécie humana tem os meios para salvar do aniquilamento a nossa política brasileira. Para tanto, cada cidadão, cada um de nós tem obrigação de contribuir para a evolução da classe política, do nosso sistema político que parou no tempo. Pelo fato de nós termos as nossas urnas eletrônicas entre as melhores do mundo, inclusive sendo modelo para países do primeiro mundo, não quer dizer que não devamos buscar mudanças, evolução no aparelho político brasileiro. Nos Estados Unidos da América, a partir do governo John Kennedy. A política teve uma evolução extraordinária, a forma de fazer política lá é totalmente favorável aos eleitores (sociedade) e também aos políticos! A política dos direitos civis dos Estados Unidos é forte e evolui a cada pleito consideravelmente. Os votos nas cidades americanas para prefeitos são distritais, cada centro vota no candidato de seu local de vivência, com isto é mais fácil inserir um candidato que é mais próximo a nós e será nosso representante no Congresso em cobranças de verbas públicas. Aqui no Brasil os prefeitos têm pouca influência na esfera federal, onde centraliza os maiores recursos. Precisamos mudar este artifício. Além disso, o voto em uma cidade do porte de Uberlândia, por exemplo, para vereador: votamos em um candidato, mas na majoritária, que nós temos na política nacional, acabamos elegendo sem querer fulano, sicrano e beltrano.
Diógenes Pereira da Silva
diogenespsilva2006@hotmail.com

“Esta fábula nos deixa uma grande lição de vida. A sociedade vive seus problemas e os torna cada vez mais graves”
É pertinente provocar discussões sobre a sustentabilidade urbana, exige de nós ação e reflexão a fim de que possa reduzir os efeitos nocivos da degradação ambiental e social, que afetam o homem e os seres vivos do planeta. Uma fábula retirada da coleção Contos de : “O Rei e o Plantador de Árvores”.
Certo dia, um rei resolveu sair do seu palácio, a fim de conhecer todo o seu reino e os que nele moravam. Viu então um velho plantando uma árvore, que demoraria muitos anos para crescer e dar frutos, fez uma pergunta: “Você não sabe que nunca poderá usufruir dos frutos dessa árvore?”. Ao que o plantador de árvores respondeu: “Sei que não poderei colher os frutos desta árvore, mas não estou aproveitando a sombra e os frutos das árvores que outros plantaram? Plantar é o que importa, e não o colher”. O rei percebeu, então, como era sábio aquele homem, levou-o para o palácio, a fim de que incentivasse todos a plantar muitas e muitas árvores.
Esta fábula nos deixa uma grande lição de vida. A sociedade vive seus problemas e os torna cada vez mais graves. Em qualquer lugar é visível a interferência da ação humana, basta olhar a sua rua, o seu bairro, a sua cidade, a poluição do ar e da água, o problema do lixo, enchentes, falta de saneamento básico, relações de trabalho injustas.
Você sabia que existe uma lei municipal, cujo artigo 201 estabelece estimular e contribuir com a recuperação da vegetação em áreas urbanas? O plantio de árvores, que também inclui as frutíferas, objetiva atingir os índices necessários à saúde da população estipulados pela Organização das Nações Unidas. O Horto Municipal de Uberlândia cumpre bem o seu papel de relevância social, basta agendar e adquirir árvores gratuitamente para plantar em residências, nas escolas ou em canteiros centrais de avenidas da cidade, em jardins etc. (Fonte: Lei Orgânica do Município de Uberlândia).
Sabemos que a maioria dos problemas ambientais tem suas raízes em fatores sociais, econômicos e éticos. A Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente em 1987 define, em seu relatório “Nosso Futuro Comum”, que as nossas necessidades atuais não devem repercutir nas necessidades das gerações futuras. Este é um grande desafio para a humanidade: criar alternativas viáveis para alcançar o desenvolvimento sustentável.
É necessário que repensemos as nossas práticas, no sentido de promover o desenvolvimento sustentável. Você sabia que um habitante citadino deve plantar 37 árvores por ano? A árvore absorve o gás carbônico e joga na atmosfera umidade suficiente, evita vários tipos de doenças, como pneumonias, alergias e asmas.
Não temos o direito de destruir o planeta, ele é um empréstimo aos homens. Cabe a administradores, empresários, professores, jornalistas e à sociedade civil, numa luta que não é somente de alguns, mas de todos, ter uma consciência ambiental e, ao mesmo tempo, propor projetos, criar sistemas autoprodutores, como alimentação, saúde, educação e lazer. Somos seres que necessitam de condições materiais de existência, mas é preciso refletir sobre as nossas experiências sociais.
Quantas árvores você plantou em 2008? Com quantas árvores você presenteou alguém?
Agnalda Rodrigues Naves
Professora e geógrafa
agnalda@uber,com.br
PIB surpreende o governo
“A única certeza que temos é que empresas e governos não podem deixar de analisar os fatos e não os argumentos que tentam explicar o que anda acontecendo na economia”
A divulgação por parte do IBGE nesta semana de que o PIB brasileiro se expandiu mais de 6% nos últimos quatro trimestres foi uma boa notícia, mas o estranho foi a surpresa que tal comunicado causou nas principais áreas do governo. A previsão até uma semana antes do comunicado era de pessimismo.
Escrevemos já há algum tempo que as empresas americanas monitoram o seu governo por não confiarem nas informações consideradas oficiais. A maioria tem uma área específica nas empresas. Desempenham, assim, o papel que o Estado deveria realizar: fornecer informações seguras para que elas possam efetivar os seus planejamentos. Tudo leva a crer que não temos motivo para não fazer o mesmo. Certa vez o ex-ministro Delfim Netto disse que “os números não mentem, mas os homens, sim”. Neste caso, prefiro afirmar que o nosso governo anda mal informado.
Temos que ficar satisfeitos com o crescimento do PIB, mas ainda é cedo para comemorar, ainda não temos um histórico que nos garanta projetar um crescimento duradouro. Grande parte dos analistas não credita este crescimento ao governo, mas sim à valorização dos produtos brasileiros no mercado mundial. Não podemos esquecer que o contexto interno ainda não permite um crescimento sustentável, a fim de que possamos ter uma economia no plano que precisamos e podemos ter.
Mas cada dia fica mais claro que o custo Brasil impossibilita a competitividade plena dos setores econômicos, mas não a ponto de inviabilizar o crescimento. Estamos aquém do que poderíamos, mas estamos crescendo.
O resultado apresentado cria um dilema: podemos ou não crescer? Até onde o custo Brasil nos permite chegar? Será necessário aumentar de fato os juros? Qual deve ser a prioridade, reformas ou discutir mecanismo para incentivar o crescimento?
A cada dia nos deparamos com fatos novos. Acreditamos que o governo brasileiro tem se esforçado para que o País tenha cada dia maior desempenho, mas tudo de bom ou de ruim que tem acontecido tem que ser depositado a vários governos. O crescimento não é resultado de um corte na história, mas de um processo de longo prazo.
O crescimento do PIB e os fatores que levaram à obtenção destes resultados têm que ser debatido em todos os fóruns: público e privado. Não podemos debitar, como já foi dito, apenas a um governo ou aos setores produtivos. Um país com tantos obstáculos internos, que vai da educação ao tributário, sem estrutura política consolidada, obtém um bom resultado se todos os envolvidos aproveitarem este momento, como estão fazendo outros países, como a China e Índia. Podemos, se assim se der, com certeza, obter um resultado muito acima do que foi conseguido até agora.
Mas a única certeza que temos é de que empresas e governos não podem deixar de analisar os fatos e não os argumentos que tentam explicar o que anda acontecendo na economia. E cada dia fica mais claro que não há mais espaço para amadorismo em qualquer atividade, a econômica tem que ser tratada com mais seriedade.
Hélio Mendes
Prof. de Estratégia de Ge