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26-10-2008


Comportamento agressivo



Quando você inicia um relacionamento amoroso, pode estar diante de três tipos de pessoas: aquelas que nunca se tornarão violentas, as que podem se tornar violentas e as que certamente farão muita besteira. O difícil mesmo é saber qual a verdadeira face de quem se mostra tão dócil e amável, algo comum a quase todas as pessoas que estão no início de uma relação apaixonada.

Mas é possível detectar alguns detalhes que revelam o perfil da outra pessoa. O término do meu primeiro namoro sério foi absolutamente traumático para mim. Sim, durante algum tempo eu fui um ex-namorado chato, pegajoso, que não dava tempo nem espaço. Acordava mais cedo e a esperava na porta da escola, aparecia em sua casa de repente e, por vezes, até falei coisas muito desagradáveis, mas nunca fiz qualquer referência à agressão física. Quem me conhecia de perto sabia que todos aqueles atos banhados de lágrimas nunca desaguariam em qualquer gesto violento, principalmente porque eu nunca revelara nenhum traço de agressividade. Por mais que eu não seja a pessoa adequada para me analisar, sinto-me seguro em dizer isso. Sei que um tiro nunca é a cena de abertura de um relacionamento trágico, pois inúmeros outros atos são encenados antes desse desfecho tão doloroso. Primeiro, vêm as palavras um pouco mais agressivas, tão logo a fase da conquista se finda e dá lugar à fase da convivência estável. Comportamentos extremos também são boas pistas, como ciúme doentio e chantagens emocionais acima do bom senso. Porém, é com a primeira ameaça de agressão física que a pessoa se revela, uma ameaça que, às vezes, vem em tom de brincadeira, disfarçando um fundo absolutamente sério.

Com o tempo, as ameaças se tornam mais constantes e perdem o ar de molecagem. Nessa hora, já é certo que você não está diante daquele primeiro perfil de pessoa, que nunca partiria para a agressão física. E também é nessa hora que você pode frear um comportamento indesejado, mas evitável, de quem tem tendência à violência, mas que não necessariamente assumirá esse papel. À primeira ameaça, ao primeiro toque mais forte, seja você homem ou mulher, cabe olhar bem nos olhos da outra pessoa, colocar o dedo em seu focinho e deixar bem claro que a brincadeira acabou por ali. Todo gatilho começa sendo puxado por uma palavra, um leve tapa ou coisa parecida. Soltando seus cachorros naquele exato momento, você poderá frear um comportamento indesejado da outra pessoa e, quem sabe, conviver harmoniosamente com ela o resto da vida.
Porém, há aqueles que nunca conseguirão se desvencilhar de sua natureza agressiva. Após você soltar seus cachorros, se o comportamento ameaçador voltar a se repetir, nem que seja por uma vez só, vá pular carnaval em Porto Seguro para se curar daquela paixão. Nada compensa o risco de perder a vida por conta daquilo que um dia já se chamou de amor.




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19-10-2008


Ouvidos órfãos



Sabe uma coisa que me faz sentir velho, mesmo com apenas 32 anos de idade? As músicas. Quando a maioria absoluta das canções que você mais ouve e de que gosta foi lançada há mais de uma década, é porque a coisa está feia. Li em algum lugar que a gente tem um limite de idade para ser receptivo a novos sons, cheiros, sabores etc.
Não sei qual era o limite para a música, mas creio que não passava dos 30. Será que estou ficando velho demais? Por que será que não consigo mais gostar dos lançamentos?

Pensando bem, a coisa é pior do que eu imaginava. Não suporto as FMs com os novos hits, mas também não agüento mais ouvir as mesmas vozes: Legião Urbana, Titãs, Kid Abelha, Led Zeppelin, Queen, Beatles, Elis Regina, Pink Floyd, Janis Joplin, Rolling Stones e por aí afora. Deu pane no meu ouvido! Às vezes, passo semanas sem prestar atenção a canção alguma, fato que não faz bem a ninguém. O ser humano precisa de música para não desumanizar. Continuo me perguntando: o que será que está errado? Será que realmente estou ficando velho?

Pensei e pensei, procurando uma luz no fim do túnel. Que estou ficando velho, disso não há dúvidas, como não há dúvidas de que meus ouvidos não são mais tão receptíveis a novos sons como eram há quase duas décadas. Mas, há outras explicações. A principal delas é que realmente estamos em uma fase de pouca criatividade musical, na qual o ritmo dominante – o sertanejo – é justamente um ritmo que consigo ouvir mais do que duas ou três músicas seguidas. Nada de preconceito, só não sou fã. Aliás, até o sertanejo anda pouco criativo, com muita regravação. Por outro lado, o estilo musical no qual foram moldados meus ouvidos, o pop/rock principalmente dos anos 1980, não se renovou e hoje é representado por bandas zumbis que não conseguem fazer nada de interessante além de regravarem o que ninguém mais agüenta escutar.

E eu na mesma, naquele blackout musical. Foi então que liguei o rádio e estava tocando uma música do Nando Reis, em que ele pedia desculpas por estar um pouco atrasado e coisa e tal. Depois, tocou outra em que o Samuel Rosa poeticamente dizia: “Sou do seu tempo um retrato, quando meu sonho era todo seu”. Na mesma hora, pensei que deveria comprar o novo álbum do Skank e que deveria ir ao show do Nando Reis. Fui ao show. Muito bom! Pena que o som estava péssimo, mal equalizado, prejudicando o desempenho do cantor e da banda. Mas valeu, pois naquelas quase duas horas eu percebi que realmente estou ficando velho, mas o copo aqui ainda está meio cheio, não meio vazio. E que ainda há alguma coisa boa e nova para se ouvir, para não me deixar desanimado, que não preciso viver só de flash-backs. Graças a Deus!




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12-10-2008


Descolamento



Ninguém agüenta mais ouvir sobre crise no sistema financeiro mundial, recessão, quebra de bancos americanos, falências na Europa e coisas do gênero. Mas esse assunto ainda vai dominar as manchetes por um bom tempo, porque a coisa é muito séria. Para nós, resta a grande pergunta: o Brasil vai ser afetado ou não por essa crise?
Não sou economista e esta coluna é publicada em um caderno de cultura, razão pela qual me sinto desobrigado a dar uma resposta conclusiva. De qualquer maneira, como o comércio internacional é muito significativo neste século 21, também marcado pela interligação fortíssima entre as instituições financeiras dos vários cantos do planeta, nós não vamos passar ilesos pelo terremoto. Porém, olhando para a nossa querida América Latina, sinto que o abalo sísmico trará para nós os efeitos que o Japão sente quando a terra treme, ao passo em que a maioria dos países latinos sofrerá da mesma forma como Irã ou Afeganistão.

Se a terra treme forte no Japão, alguns problemas sérios ocorrem, algumas casas são abaladas, poucas pessoas morrem. Não dá para sair totalmente ileso, porque terremoto é terremoto. Porém, um tremor da mesma intensidade em países que não são preparados para essa catástrofe leva milhares de pessoas à morte ou à condição de desabrigados. Assim acontecerá com a atual crise financeira. Países latinos como o Brasil e o Chile, que têm sido responsáveis há mais de uma década e nos quais a alternância de poder não tem alternado a visão de que é preciso uma política pensada no desenvolvimento da nação, sentirão os efeitos da crise de forma muito mais amena do que Equador, Bolívia, Argentina e Venezuela etc. Aliás, como as férias estão chegando e outubro já é hora de decidir o que fazer no verão, sugiro uma viagem pela América do Sul.

Não se preocupe com o dólar (exceto quanto à passagem aérea), pois ele atingiu todas as moedas de maneira mais ou menos uniforme. Vá para o Chile e para a Argentina, como fiz em 2004, e você verá a diferença entre os dois países. Ou faça um mochilão e viaje pela Bolívia e Peru, até Machu Picchu, para ver como já estamos distantes da realidade dos nossos vizinhos.
Esse será, em minha opinião, um dos grandes legados da atual crise financeira: evidenciar os abismos que começam a se formar entre países latinos que, invariavelmente, sempre viveram abraçados na lama da pobreza, do subdesenvolvimento e das demais desgraças humanas. Agora, se Brasil e Chile ainda não podem dizer que saíram da lama, ao menos podem se orgulhar de estar apenas com os pés nela, enquanto os demais vizinhos continuam atolados até o pescoço. Enfim, não estamos mais abraçados.




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05-10-2008


Um chifre com final feliz



Como todo mundo já foi corno ao menos uma vez na vida, e quem disser o contrário é porque anda muito mal informado, conto como um chifre mudou a minha vida. Olhando para trás, hoje com a cabeça muito mais leve em todos os sentidos, vejo como acontecimentos simples podem decidir um destino.

Estava eu no primeiro ano de faculdade, em 1994, quando fiz uma entrevista de emprego em uma multinacional em Osasco/SP. O trabalho era bom e, se eu conseguisse entrar, certamente teria uma carreira próspera na área de marketing. Eu acordei inspirado e fiz uma entrevista tão boa, que consegui me classificar para a seleção final. Modéstia à parte, a entrevistadora só não me contratou ali na hora, porque o roteiro determinava uma segunda etapa. Uma semana depois, ligaram para mim marcando a seleção derradeira para a manhã seguinte. Ainda naquele dia, porém, me bateu uma dúvida de coçar a testa. Eu tinha uma namorada que era uma companhia absolutamente agradável, mas eu desconfiava que mais gente tinha a mesma opinião. Eu em São Paulo, ela em Uberlândia, 600 quilômetros de distância entre nós... Lá pelas sete da noite, resolvi ligar para uma amiga em Uberlândia para tirar aquela história a limpo, pois nunca fui de dormir com pulga atrás da orelha. Comprei umas fichas, fui até o orelhão e, passados os cumprimentos iniciais, fui direto à pergunta: “Escuta, me diga uma coisa: a Fulana de Tal está com outra pessoa?”. Veio então a resposta: “Bem, se você quer mesmo saber a verdade...”.

Não preciso contar o resto! Quando uma frase começa com “se você quer mesmo saber a verdade”, é porque há algo muito ruim que só você não sabe! Naquela noite, fui a uma festa na USP com meus amigos e afoguei as mágoas. Essas coisas aí que os sertanejos cantam, de beber para curar dor de chifre, eu vivenciei direitinho até umas quatro horas da madrugada. Mas e a entrevista no outro dia? Eu fui lá e confesso que a ressaca não me abalou quase nada. O problema foi a droga daquele peso na cabeça! Empolgada, a mesma entrevistadora foi perdendo o sorriso ao longo da seleção, diante de minha fala sem graça, abatida, sem qualquer empolgação para assumir a vaga.

Aquele chifre mudou a minha vida. Hoje, olho para trás e percebo que não seria feliz passando toda a minha vida na capital paulista, o que certamente teria ocorrido se eu tivesse entrado naquela empresa, pois os fatos que traçaram meu caminho em seguida estiveram todos ligados ao meu desemprego. Embora eu espere nunca mais ter uma experiência daquela, eu tiro duas lições disso tudo: primeiro, eventos simples, às vezes, traçam o futuro de uma vida inteira; segundo, até chifre tem seu lado positivo. Se você estiver duvidando, é só testar!




Comentários (1)



Comentários




florgranele
12-10-2008
É isso ai - concordo com você. E acho que só existem dois tipos de cornos - o que sabe e o que não sabe.......
















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