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Modo de Ver







30-11-2008


Polícia: heróis?



O cinema reflete as paranóias da sociedade em que é produzido. “Carandiru”. “Cidade de Deus”. “Última parada 174”. A violência é a nossa paranóia. Também temos filmado muito a ditadura, mas a violência é nosso tema recorrente.

Fui assistir à “Última parada 174”, mas acho que meu couro já está grosso. Dizem que com o tempo a gente se acostuma a tudo e eu acabei me acostumando um pouco com esse ciclo vicioso de pobreza, drogas e sangue.

A perda da sensibilidade! A história de Sandro, o sujeito que fez reféns no ônibus 174, é uma das melhores definições que podemos dar à palavra “tragédia”. Não há nada ali que não seja triste, deprimente, revelador da degeneração humana.

Comoveu-me um pouco, mas minha sensibilidade anda sufocada em meio a tantos tiros, o que me fez olhar o filme com outras preocupações. O que deu errado naquele ônibus? E o que deu errado no caso dos três rapazes recentemente condenados em Guarulhos pela morte da jovem Vanessa?

Aliás, qual foi o problema naquele longo seqüestro da menina Eloá? Não há filme ou reportagem de TV que passe pelos meus olhos sem alguma reflexão: vícios de um escritor. O que alimenta essa violência, que por sua vez alimenta nossa paranóia e, em conseqüência, dá matéria-prima à indústria cinematográfica nacional e aos noticiários de TV? Seria a pobreza? A desigualdade social? Talvez.

Discursos bonitos de acadêmicos que teorizam sobre a favela enquanto jantam em um restaurante chique. Sim, a pobreza tem a sua parcela de culpa, bem como a desigualdade social. Mas só isso não explica. Não é justo dizer que todo bandido é bandido por causa desses dois males, não é justo principalmente com quem sofre por conta deles, mas leva uma vida honesta.

Nos três casos citados, há outro problema: a polícia. Com os três jovens condenados em Guarulhos, um inquérito mal feito, duas confissões dúbias e a certeza de que ao menos uma delas foi por tortura. No ônibus 174, uma arma errada e policiais despreparados. Com Eloá, tudo errado. Carandiru? A mesma coisa. Mas, é fácil jogar a culpa toda em homens que ganham mal e não recebem o treinamento adequado. A violência que alimenta nossa paranóia é fruto em grande parte da polícia que temos. Acabar com ela?

Pelo contrário: mais do que nunca, precisamos dar apoio aos homens que estão na linha de frente. Melhores salários, melhores condições de trabalho, mais treinamento, equipamentos adequados, expulsão daqueles que mancham o nome da corporação e atrapalham o trabalho dos policiais honestos. É disso que precisamos. Acabar com a pobreza e a desigualdade certamente ajudará a combater o crime e a diminuir nossa paranóia com a violência. Mas, para que cortemos a matéria-prima dominante em nosso cinema nacional, precisamos, acima de tudo, de dar condições para que nossos policiais troquem – na vida real – o papel de vilões pelo de heróis.

*alexandre.henry.alves@gmail.com




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23-11-2008


Eu me rendo!



Peguei a estrada rumo a Caldas Novas, depois de uns três anos sem fazer esse trajeto. A praia goiana cresceu muito na última década, mas também perdeu em qualidade e sossego. Passei dois carnavais por lá, antes da virada do milênio, para nunca mais voltar. Depois disso, apenas passeios de fim de semana, fora de feriado.

Voltei, depois de três anos. De cara, fiz uma descoberta traumática: se eu estava à procura de sossego, tinha escolhido o fim de semana errado, pois um festival de música sertaneja havia inundado Caldas Novas com um monte de coisas que não são do meu gosto, tais como carros que mais parecem trios elétricos uma quantidade excessiva de homens bêbados e aquela música sertaneja tocando o tempo inteiro. Com gente bêbada pendurada do lado de fora do carro, fazendo algazarra durante a madrugada, provavelmente, eu não vou me acostumar nunca. Muito menos com excesso de homem, uma das razões de Barretos nunca ter visto minha cara. Mas a música sertaneja...

Já tinha ouvido em certas ocasiões o pai da Sandy cantar, até comprei um LP dele em 1991, posso dizer que aprecio várias músicas da dupla Christian & Ralf, emocionei-me com o filme “Dois filhos de Francisco”, mas minha relação com a música sertaneja termina por aí. Claro, também toco “Chico Mineiro” no violão, mas isso não conta. Eis que, de repente, vejo-me, então, no meio daquele mar de gente vestida com botas e chapéus, usando um palavreado colhido no meio do cerrado e ouvindo, evidentemente, música sertaneja o tempo todo.

Não, meu ouvido não agüentava aquela overdose! Tantas vozes desconhecidas, tantas músicas sofríveis, até que apareceu um sapo no alto-falante: “Moro num lugar, numa casinha inocente do sertão, de fogo baixo aceso no fogão, fogão à lenha, ai, ai... Que vida boa, sapo caiu na lagoa, sou eu no caminho do meu sertão”. Tocou uma vez. Duas. Três. Alguém passou perto de mim assoviando a melodia e então eu resolvi prestar atenção à letra. Coisa boba, rimas simples, melodia leve, nenhuma pretensão. Logo depois, as mesmas vozes: “Tem que ser você, sem por que, sem pra que...”. Aquilo eu já tinha ouvido em algum lugar! Vou para a rua e a mesma dupla continua me perseguindo: “Enquanto a gente briga por alguém, a gente fica sem ninguém. Apronta, insiste, mas no fim das contas a moça desiste”. Àquela altura, já sabia que era uma dupla sertaneja com moradia em Uberlândia.

Na volta, um CD entrou no carro. Três dias depois, indo para o trabalho de terno e gravata, lá estou eu acompanhando a música que tocava: “Que vida boa, sapo caiu na lagoa...”. Acabei me rendendo! Meus ouvidos ainda rejeitam quase tudo que diz respeito ao sertanejo atual (segundo meu amigo Antônio Pereira, isso nem é sertanejo). Mas acho que por conta da overdose proporcionada por Caldas Novas e pelo CD que não mais saiu do carro, acabei agradando com as canções desses dois moços aí, que descobri serem Victor e Léo. Que vida boa!




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Comentários




Lápis
23-11-2008
Ninguém posta comentários aqui, estranho ? Parabéns pelos seus textos !




kennedy
25-11-2008
Seriá por que, o nome é ``Modo de ver`` ? Acho que não tem comentário, por que os post mais recentes, são sobre onde o mesmo esteve. suas aventuras, etc... Mais sempre marco presença aqui.




Sergio Piter
04-12-2008
Realmente primo, entre tantas novas duplas sertanejas universitárias ainda existem alguma que presta, esta é uma que gosto de ouvir.










16-11-2008


Sobre derrotas e vitórias



Existem maneiras diferentes de ganhar e de perder. Engana-se quem pensa que toda vitória é igual e que qualquer derrota tem o mesmo significado. Peguemos os exemplos mais próximos que nós temos.
Rubinho Barrichello foi derrotado em duas oportunidades, nas quais terminou o campeonato de Fórmula 1 em segundo lugar. Felipe Massa recentemente também foi derrotado, mas será que as duas situações são iguais?

Alguém sempre poderá dizer que a perda do campeonato foi mais dolorida para Massa do que para Rubinho, mas não estou falando de dor, estou falando da imagem que cada um deixou após não conseguir atingir o posto de número um. O atual piloto da Ferrari lutou até o fim, mostrou raça, deu seu sangue para atingir o tão sonhado objetivo, dando adeus ao campeonato apenas na última curva da última volta da última corrida da temporada. E Rubinho? Tudo bem que ele tinha como companheiro um sujeito chamado Michael Schumacher, mas em nenhum instante sequer ele mostrou raça ou capacidade suficiente para atingir o lugar mais alto do pódio. Massa foi derrotado, Rubinho fracassou. Os verbos aí têm um peso diferente, como têm!

Imaginemos outro caso, o da seleção brasileira de futebol. Tanto em 1982 quanto em 2006, saímos da Copa do Mundo nas quartas-de-final. Estatisticamente, o peso das derrotas foi o mesmo. Mas, será que dá para comparar as duas equipes? Será que aquele time modorrento que atuou na Alemanha chega aos pés da seleção de Telê Santana que foi às lágrimas na Espanha? Não, não há nem como comparar.

Os mais chatos dirão que as duas seleções ficaram na mesma, que derrota é tudo igual, mas eu insisto em dizer que não. Há como perder de cabeça erguida e há como perder de maneira vergonhosa. Quem nunca viu um time sair de campo derrotado, mas mesmo assim receber aplausos da torcida? O que importa é ganhar, claro, mas há algo mais na derrota que diferencia os perdedores. Tenho certeza de que qualquer pessoa, se fosse piloto de Fórmula 1, gostaria de perder na pele de Massa em vez de Barrichello. As vitórias também são diferentes. Bush ganhou em 2000 em meio a uma polêmica que manchou a imagem até da Suprema Corte americana. Obama venceu agora nos braços do povo, sem um ponto sequer de desconfiança em relação à lisura de sua vitória. Será presidente como Bush foi, mas na pele de qual dos dois você gostaria de estar? São vitórias de mesmo peso?

Enfim, há maneiras diferentes de perder e de ganhar e elas refletem o que você é, o que você vai ser e o legado que vai deixar quando partir deste mundo. Se isso não importa para muitas pessoas, para outro tanto faz toda a diferença. Para mim, ao menos, faz. Ano que vem, estarei na torcida por Felipe Massa, como nunca torci por Barrichello. Derrotados, mas diferentes. Ano que vem, torcerei pelo sucesso de Obama como em momento algum desejei por Bush. Vencedores, mas incomparáveis.





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09-11-2008


Sobre derrotas e vitórias



Existem maneiras diferentes de ganhar e de perder. Engana-se quem pensa que toda vitória é igual e que qualquer derrota tem o mesmo significado. Peguemos os exemplos mais próximos que nós temos.

Rubinho Barrichello foi derrotado em duas oportunidades, nas quais terminou o campeonato de Fórmula 1 em segundo lugar. Felipe Massa recentemente também foi derrotado, mas será que as duas situações são iguais?

Alguém sempre poderá dizer que a perda do campeonato foi mais dolorida para Massa do que para Rubinho, mas não estou falando de dor, estou falando da imagem que cada um deixou após não conseguir atingir o posto de número um. O atual piloto da Ferrari lutou até o fim, mostrou raça, deu seu sangue para atingir o tão sonhado objetivo, dando adeus ao campeonato apenas na última curva da última volta da última corrida da temporada. E Rubinho? Tudo bem que ele tinha como companheiro um sujeito chamado Michael Schumacher, mas em nenhum instante sequer ele mostrou raça ou capacidade suficiente para atingir o lugar mais alto do pódio. Massa foi derrotado, Rubinho fracassou. Os verbos aí têm um peso diferente, como têm!

Imaginemos outro caso, o da seleção brasileira de futebol. Tanto em 1982 quanto em 2006, saímos da Copa do Mundo nas quartas-de-final. Estatisticamente, o peso das derrotas foi o mesmo. Mas, será que dá para comparar as duas equipes? Será que aquele time modorrento que atuou na Alemanha chega aos pés da seleção de Telê Santana que foi às lágrimas na Espanha? Não, não há nem como comparar.

Os mais chatos dirão que as duas seleções ficaram na mesma, que derrota é tudo igual, mas eu insisto em dizer que não. Há como perder de cabeça erguida e há como perder de maneira vergonhosa. Quem nunca viu um time sair de campo derrotado, mas mesmo assim receber aplausos da torcida? O que importa é ganhar, claro, mas há algo mais na derrota que diferencia os perdedores. Tenho certeza de que qualquer pessoa, se fosse piloto de Fórmula 1, gostaria de perder na pele de Massa em vez de Barrichello. As vitórias também são diferentes. Bush ganhou em 2000 em meio a uma polêmica que manchou a imagem até da Suprema Corte americana. Obama venceu agora nos braços do povo, sem um ponto sequer de desconfiança em relação à lisura de sua vitória. Será presidente como Bush foi, mas na pele de qual dos dois você gostaria de estar? São vitórias de mesmo peso?

Enfim, há maneiras diferentes de perder e de ganhar e elas refletem o que você é, o que você vai ser e o legado que vai deixar quando partir deste mundo. Se isso não importa para muitas pessoas, para outro tanto faz toda a diferença. Para mim, ao menos, faz. Ano que vem, estarei na torcida por Felipe Massa, como nunca torci por Barrichello. Derrotados, mas diferentes. Ano que vem, torcerei pelo sucesso de Obama como em momento algum desejei por Bush. Vencedores, mas incomparáveis.




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02-11-2008


Maradona



Muitos heróis conquistaram esse título não pelo que efetivamente fizeram, mas pelo que poderiam ter feito. Claro, ninguém vira herói sem um currículo impressionante. Ayrton Senna, por exemplo, foi um piloto muito mais do que extraordinário. Porém, o que sempre fica na mente é o que Senna poderia ter feito se tivesse continuado a correr.

Che Guevara, deixadas as polêmicas de lado, será sempre lembrado como um idealista que poderia ter mudado o mundo com suas revoluções populares. Já outros heróis mantêm esse título, porque pararam na hora certa, como fez Pelé nos campos e o Felipão com a seleção brasileira. Pelé certamente ainda poderia ter jogado por mais tempo, porque mesmo já mais velho tinha uma habilidade que superava a da maioria dos moleques. Felipão também poderia ter continuado na seleção após conquistar o penta, mas sabia dos riscos e decidiu sair na hora certa. Tornou-se um treinador herói, uma referência para o futebol brasileiro, um nome sempre lembrado quando olhamos o caquético conjunto que hoje temos.
Mas, apesar de tudo o que eu disse, tem gente que não sabe dessa lição. Maradona é a figura do momento: está correndo um risco gigantesco de afundar sua aura de deus na Argentina após assumir a seleção daquele país.

Quem nunca foi a Buenos Aires não sabe que por lá existe outro deus além daquele tratado na Bíblia, um deus que já aprontou muita bagunça neste mundo, mas que é reverenciado por todos os hermanos. Maradona é uma religião em terras portenhas. Nem mesmo todas as bobagens que fez, suas incursões no sombrio mundo das drogas, sua figura gorda e patética, abalaram a imagem de herói que mantém na Argentina. O que deu na cabeça dele para aceitar o cargo de treinador da esquadra celeste? A menos que ele classifique a Argentina para a Copa do Mundo e ganhe o tricampeonato, sua estada no Olimpo está com os dias contados.

Pelé nunca aceitou treinar a seleção, porque sabe o risco enorme que isso significa. Melhor deixar na memória do povo apenas suas jogadas magistrais dentro de campo, algo que não poderá ser abalado, porque faz parte do passado, do que se arriscar em um campo minado e governado pelo futuro improvável. Se Pelé assumisse a seleção e fracassasse, receberia muito menos convites para publicidade, eventos, seria muito menos tietado, enfim, perderia um tanto bom da aura heróica que ganhou dentro das quatro linhas. Acontecerá o mesmo com Maradona, a menos que ele consiga a proeza de repetir fora do campo o que fez no México em 1986.

No lugar dele, não sei o que eu faria. Talvez recusasse o convite, acho que seria o mais natural. Se já provei que sou muito bom em uma área, para que ter a vaidade de também querer ser o melhor em outra? A menos que eu tenha absoluta segurança de que sairei novamente vencedor, o que, às vezes, realmente acontece, dar esse passo pode significar cair de uma altura muito grande, que costuma deixar fraturas expostas.





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