
Existem maneiras diferentes de ganhar e de perder. Engana-se quem pensa que toda vitória é igual e que qualquer derrota tem o mesmo significado. Peguemos os exemplos mais próximos que nós temos.
Rubinho Barrichello foi derrotado em duas oportunidades, nas quais terminou o campeonato de Fórmula 1 em segundo lugar. Felipe Massa recentemente também foi derrotado, mas será que as duas situações são iguais?
Alguém sempre poderá dizer que a perda do campeonato foi mais dolorida para Massa do que para Rubinho, mas não estou falando de dor, estou falando da imagem que cada um deixou após não conseguir atingir o posto de número um. O atual piloto da Ferrari lutou até o fim, mostrou raça, deu seu sangue para atingir o tão sonhado objetivo, dando adeus ao campeonato apenas na última curva da última volta da última corrida da temporada. E Rubinho? Tudo bem que ele tinha como companheiro um sujeito chamado Michael Schumacher, mas em nenhum instante sequer ele mostrou raça ou capacidade suficiente para atingir o lugar mais alto do pódio. Massa foi derrotado, Rubinho fracassou. Os verbos aí têm um peso diferente, como têm!
Imaginemos outro caso, o da seleção brasileira de futebol. Tanto em 1982 quanto em 2006, saímos da Copa do Mundo nas quartas-de-final. Estatisticamente, o peso das derrotas foi o mesmo. Mas, será que dá para comparar as duas equipes? Será que aquele time modorrento que atuou na Alemanha chega aos pés da seleção de Telê Santana que foi às lágrimas na Espanha? Não, não há nem como comparar.
Os mais chatos dirão que as duas seleções ficaram na mesma, que derrota é tudo igual, mas eu insisto em dizer que não. Há como perder de cabeça erguida e há como perder de maneira vergonhosa. Quem nunca viu um time sair de campo derrotado, mas mesmo assim receber aplausos da torcida? O que importa é ganhar, claro, mas há algo mais na derrota que diferencia os perdedores. Tenho certeza de que qualquer pessoa, se fosse piloto de Fórmula 1, gostaria de perder na pele de Massa em vez de Barrichello. As vitórias também são diferentes. Bush ganhou em 2000 em meio a uma polêmica que manchou a imagem até da Suprema Corte americana. Obama venceu agora nos braços do povo, sem um ponto sequer de desconfiança em relação à lisura de sua vitória. Será presidente como Bush foi, mas na pele de qual dos dois você gostaria de estar? São vitórias de mesmo peso?
Enfim, há maneiras diferentes de perder e de ganhar e elas refletem o que você é, o que você vai ser e o legado que vai deixar quando partir deste mundo. Se isso não importa para muitas pessoas, para outro tanto faz toda a diferença. Para mim, ao menos, faz. Ano que vem, estarei na torcida por Felipe Massa, como nunca torci por Barrichello. Derrotados, mas diferentes. Ano que vem, torcerei pelo sucesso de Obama como em momento algum desejei por Bush. Vencedores, mas incomparáveis.


Muitos heróis conquistaram esse título não pelo que efetivamente fizeram, mas pelo que poderiam ter feito. Claro, ninguém vira herói sem um currículo impressionante. Ayrton Senna, por exemplo, foi um piloto muito mais do que extraordinário. Porém, o que sempre fica na mente é o que Senna poderia ter feito se tivesse continuado a correr.
Che Guevara, deixadas as polêmicas de lado, será sempre lembrado como um idealista que poderia ter mudado o mundo com suas revoluções populares. Já outros heróis mantêm esse título, porque pararam na hora certa, como fez Pelé nos campos e o Felipão com a seleção brasileira. Pelé certamente ainda poderia ter jogado por mais tempo, porque mesmo já mais velho tinha uma habilidade que superava a da maioria dos moleques. Felipão também poderia ter continuado na seleção após conquistar o penta, mas sabia dos riscos e decidiu sair na hora certa. Tornou-se um treinador herói, uma referência para o futebol brasileiro, um nome sempre lembrado quando olhamos o caquético conjunto que hoje temos.
Mas, apesar de tudo o que eu disse, tem gente que não sabe dessa lição. Maradona é a figura do momento: está correndo um risco gigantesco de afundar sua aura de deus na Argentina após assumir a seleção daquele país.
Quem nunca foi a Buenos Aires não sabe que por lá existe outro deus além daquele tratado na Bíblia, um deus que já aprontou muita bagunça neste mundo, mas que é reverenciado por todos os hermanos. Maradona é uma religião em terras portenhas. Nem mesmo todas as bobagens que fez, suas incursões no sombrio mundo das drogas, sua figura gorda e patética, abalaram a imagem de herói que mantém na Argentina. O que deu na cabeça dele para aceitar o cargo de treinador da esquadra celeste? A menos que ele classifique a Argentina para a Copa do Mundo e ganhe o tricampeonato, sua estada no Olimpo está com os dias contados.
Pelé nunca aceitou treinar a seleção, porque sabe o risco enorme que isso significa. Melhor deixar na memória do povo apenas suas jogadas magistrais dentro de campo, algo que não poderá ser abalado, porque faz parte do passado, do que se arriscar em um campo minado e governado pelo futuro improvável. Se Pelé assumisse a seleção e fracassasse, receberia muito menos convites para publicidade, eventos, seria muito menos tietado, enfim, perderia um tanto bom da aura heróica que ganhou dentro das quatro linhas. Acontecerá o mesmo com Maradona, a menos que ele consiga a proeza de repetir fora do campo o que fez no México em 1986.
No lugar dele, não sei o que eu faria. Talvez recusasse o convite, acho que seria o mais natural. Se já provei que sou muito bom em uma área, para que ter a vaidade de também querer ser o melhor em outra? A menos que eu tenha absoluta segurança de que sairei novamente vencedor, o que, às vezes, realmente acontece, dar esse passo pode significar cair de uma altura muito grande, que costuma deixar fraturas expostas.