
Dor é dor e, como tal, provoca sempre a dose de sofrimento proporcional à sua dimensão. Portanto, tem sua equivalência na razão, origem e profundidade de suas raízes. Por isso, toda dor é diferente, única, incomparável na sua individualidade.
Tem dores de diferentes níveis, intensidades, freqüências. E persistência. Dor que passa, que traz alívio logo. Como as dores do aborrecimento, muitas vezes, causadas pela nossa própria ansiedade, pelo nosso egoísmo, pela nossa mania de achar que o nosso ponto de vista é o melhor e nossa indisfarçável pretensão de "donos da verdade". Dores que esquecemos rapidamente. Que pouco tempo depois nem lembramos que passamos por elas.
Tem as dores que a gente, contrariando nossa vontade, acabe causando nos outros. A dor que a gente provoca sem querer, sem perceber, sem ver. Mas que dói exatamente em quem a gente menos quer ver sofrer. E tem a do reprimida de não conseguir evitar que quem a gente ama sofra sem precisar, se machuque sem necessidade.
Tem a dor que comove, que contagia, que é pública e repercute. Que causa indignação e consternação públicas, mas que logo passa diante de outra maior e que fica doendo só para quem está diretamente ligada.
E tem dor que dói e marca. Que ao contrário de outras, aumenta com o tempo ao invés de diminuir. Dor que além de provocar sofrimento, magoa.
E mágoa é como saudade do tempo de criança, nunca diminui, só aumenta. Vai e volta, que nem ferroada de marimbondo, que nem íngua no pescoço.
Corrói e destrói lentamente. Cria dependência e vicia. O indivíduo abandona a direção da sua vida e a entrega ao outro. Refém de uma situação ou fato que ela não consegue administrar, apagar, virar a página. Veneno que o próprio paciente vai tomando pensando que é remédio.
Tem a dor solitária, triste e sofrida. Calada, muda, que vai matando aos poucos, retirando a alegria de viver, principalmente quando ainda é alimentada por algum sentimento qualquer de culpa, de omissão, de desatenção.
E tem a dor que nem é diretamente na gente, mas como quem a sente é muito ligada na gente, tem um pouco de dor da gente.
A dor do outro que dói na gente. A dor que não é bem nossa, pelo menos não diretamente, mas que sentimos. De uma forma e intensidade diferente, mas sentimos. A dor dolorida, de ver quem a gente gosta sofrendo desesperadamente uma dor que não tem fim. A dor do silencio e da torcida.
De não ter o que falar, mas uma vontade enorme de ver tudo melhorar. A dor doída de não poder fazer nada. A dor de não poder ajudar. A dor de ser inútil. A dor de querer ser mais, de fazer mais, de poder mais. A dor de não poder apagar a dor. A dor de saber que tem dor que nunca vai passar.

Sei que não existe esta palavra, porque tive o cuidado de procurar no dicionário e não a encontrei. Mesmo assim insisti em escrevê-la, porque a considero cada vez mais necessária em nosso vocabulário.
Vivemos um mundo em que as pessoas estão ávidas por conhecimento como base para seu crescimento pessoal e profissional. Tem curso para tudo e para todos. E realmente faz todo sentido que o ser humano complemente sua formação, buscando o desenvolvimento nas áreas em que é menos qualificado ou onde necessita um grau de especialização maior. Neste mundo altamente competitivo e de constantes e extraordinárias mutações, a velocidade em aprimorar o lado intelectual é fundamental.
Onde então entra o “humildecer”?
Para mim, entra como uma necessidade cada vez mais crucial na vida de muitas pessoas. Porque está crescendo, e como, a quantidade daquelas que, nessa volúpia de aumentar sua bagagem de qualificações, têm a equivocada atitude de imaginar que, pelo fato de adquirirem um pouco mais de conhecimento, se tornam naturalmente superiores às outras. E o pior é que alastram isso pelo seu círculo de relacionamento. Disseminam não o acesso ao aprendizado que tiveram, mas a arrogância de egos que não conseguem evoluir na mesma escala da ascensão de suas trajetórias profissionais.
Pessoas que estão necessitando de um outro tipo de curso. E de o propagarem pelo seu círculo de convivência. Um curso para aprender a ser mais humilde, ser menos arrogante, ser mais simples, de baixar a bola. De especialização em ser gente igualzinha as outras. Isto se conseguirem melhorar bem...
Que a merecida escalada de uma carreira profissionalmente desgastante e sacrificada não elimina a atenção idêntica que tem de ser dada com relação ao seu comportamento, às suas atitudes, ao seu jeito de ser. Até pelo contrário, que reconhecem que o fato de alcançar posições de maior relevância as coloca num nível de destaque em que tudo que fazem tem uma repercussão muito maior pelo exemplo em que se transformaram.
E que as parceiras deles nessa jornada, que tanto contribuem para seus sucessos e, portanto, altamente merecedores de compartilhar dele, estão igualmente compromissadas em terem comportamentos que os referenda e não os desgaste.
Que da mesma forma com que levam para casa, com tanto orgulho, tudo aquilo que os promove, recompensa e os destaca, possam também levar a prudente recomendação de conhecer um pouco mais essa palavra que não existe, mas deveria: humildecer!

Não é fácil, mas estamos precisando de rever um hábito costumeiro e, geralmente, bastante destrutivo da vida moderna: a comparação.
A todo momento, em todo lugar, situação e circunstância, tudo é motivo de comparação. A toda hora, todo mundo está comparando tudo. E, certamente, está aí a origem de tanta frustração, tanta infelicidade, tanta insatisfação e revolta. Porque ao olhar para o outro e não para si, a pessoa está sempre buscando aquilo que não tem, não se satisfazendo com o que conquistou ou conseguiu.
E nunca vai estar em paz, bem e feliz porque não é da sua vida que ela cuida, mas da dos outros.
Se a referência fosse com relação a quem tem menos, passa mais aperto ou sufoco, é menos aquinhoada em determinados atributos e requisitos, talvez até que não fosse de todo ruim, porque poderia surgir em escala maior a gratidão do que a reclamação, a satisfação do que a lamúria, o reconhecimento do que a insatisfação. Mas a questão é que o comparativo é sempre com momentaneamente tem mais ou está em maior evidência.
Ao comparar com o outro, a pessoa acaba dedicando muito mais atenção ao outro do que a si própria e, por isso, passa muitas vezes a ser especialista em terceiros e ignorante em relação a si mesma.
Falta, a quem tem esse tipo de comportamento, reconhecer-se como indivíduo, portanto, único, próprio, com características, peculiaridades que o tornam singular. Para ir ao popular, como li certa vez esta inteligente frase estampada no pára-choque de um caminhão boiadeiro: não sou melhor, nem pior, apenas diferente.
Assim, cada um é único e como tal deve dedicar muito mais atenção em cuidar de si para que seus atos e suas atitudes reflitam o seu jeito, não obediência a estilos e regras, momentaneamente, ditadas pelas suscetibilidades sociais. Do contrário, essa pessoa nunca é realmente ela, mas uma somatória daquilo que inveja nos outros. Deixa de ser original, para se transformar em mais uma cópia, um sósia, uma imitação.
Falta a ela a coragem de assumir que, se nasceu para ser alguém, porque não ser ela própria? Com isto, temos mais um paradoxo dos tempos atuais desse mundo cada vez mais comparativo: original é quem consegue, com autenticidade, ser uma reprodução de si mesmo.
* O livro "Quando o assunto é gente", do cronista Celso Machado, está a venda na livraria Nobel por R$ 32.