
A nossa roça era animada. É que ela era ainda quase isolada da cidade e as propriedades rurais não passavam de sítios ou fazendas pequenas. Havia, pois, muita gente por lá. Daí, o agito que sempre acontecia em bailes e brincadeiras dançantes, principalmente nas casas que tinham moças. Ao som de violão, cavaquinho e sanfona, a turma se esbaldava.
Tivemos até um time de futebol na Ortiga, o Coqueiro Futebol Clube. A princípio batia-se bola no vasto terreiro de secar café, bem em frente ao nosso casarão. Chegamos à conclusão de que deveríamos ter um campo. Este foi construído num pastinho quase plano da nossa fazendinha, o qual foi palco de importantes jogos. Nos treinos, quando não havia jogadores suficientes, ele acontecia na base do ataque contra a defesa, numa das metades do campo, tal qual o jogo do Brasil contra a Bolívia, no Engenhão, no dia 10 de setembro de 2008. Nossos craques até que se esforçavam para romper a muralha boliviana. Não conseguiram. Aquele zero a zero foi justo.
O empate teve dois sabores: o de vitória para os bolivianos e de derrota para os brasileiros. A Bolívia foi sabida e previdente. Diante do que viu acontecer com o Chile, falou: “Epa, vou tirar o meu do rumo!” Tirou. Não deixou sequer vaselina por perto. A seleção brasileira nada pôde fazer. Faltou-lhe principalmente pontaria. Não posso deixar de aplaudir os bolivianos. A galera brasileira ainda está chiando.
Então, o que tenho a fazer é terminar esta parola futebolística com a seguinte peruada: “Cartolas da CBF, entreguem a seleção ao técnico Luxa. É o mais competente. Tenho certeza de que vai enxertar a seleção com os dois cracaços de sua preferência, o Piorra e o Carvalho. Ao incentivá-los, aos gritos, lá da área técnica, é certo que os demais jogadores do time serão também estimulados”.
Nota do Autor: O apelido do Piorra é “Esperma” e o do Carvalho é “Pênis”.

Comecei a me familiarizar com telefone na Sotreq, no Rio de Janeiro. Quando aqui cheguei, em 1948, a Teixeirinha já era bem avançada: a gente, com muita paciência, podia até fazer interurbanos. Certa vez, em Avatinguara, em companhia do Peixotinho, pretendemos falar com Uberlândia. A telefonista, uma morena boazuda de cabelos compridos, pôs-se a girar freneticamente a manivela do aparelho e a gritar: “Ô, Oberlândia! Ô, Oberlândia! Atende, Oberlândia!” Neca de Uberlândia atender. Ela insistia, aos berros: “Ô, Oberlândia! Responde, Oberlândia! Ô, Oberlândia fedaputa!” Quanta grossura! Que diferença das moças do Rio!
Transformei o quarto 307 do Hotel Colombo em “esquartório” e ali instalei o telefone 1307 adquirido da Teixeirinha, por intermédio do Durval e do Moacir, filhos do Tito Teixeira, dono daquela empresa. Algum tempo depois, já operada pela CTBC, ele passou para 4–1307. Anos mais tarde, recebeu o número 3234-2573 e, hoje, é o que está na Lista SABE.
Como era bom atender às ligações das namoradas, no quarto, tão à vontade quanto Adão no Paraíso. Uma era eurodescendente; a outra, afrodescendente. Esta rendeu bons dividendos transacionais.
Tenho estado agora com raiva do meu telefone. O aparelho pára de tocar rapidamente. Foi daí que tentei falar com a CTBC. Desisti. Detesto falar com “seres eletrônicos”. Gosto de me entender com humanos. Liguei, pois, para um dos seres humanos dos mais humanos que conheço, o Celso Machado, um dos maiorais do Grupo Algar. Funcionou. No dia seguinte, o Lázaro, atencioso e gentil funcionário da CTBC, me ligou e me disse, em resumo, que se tratava de assunto da Central.
Diante daquela realidade, só me resta pedir à Central que arranje um doutor urologista eletrônico capaz de livrar meu telefone daquela abominável ejaculação precoce.

É pra me gabar: jamais pedi a jornal ou revista para me publicar. Comecei na revista “Seiva” dos estudantes de Viçosa, a convite dos colegas que estavam para lançá-la. Em seu segundo número, este modesto escrevinhador era o diretor daquela revista, a qual publicou, em seu primeiro número, uma crônica de minha autoria, fato que se deu em agosto de 1940. Nela permaneci até virar engenheiro agrônomo como diretor, redator, revisor...
Já na tal vida prática, fui convidado pelo fabuloso engenheiro agrônomo Antônio Secundino de São José, meu ex-professor de Genética, para mandar meus escritos para o jornal “Agroceres”. Nele permaneci durante 20 anos.
Nesta cidade, comecei em “O Triângulo”, a convite do Ivan Santos, logo que ele assumiu a editoria daquele jornal no lugar do Marçal Costa. Levou-me dali para “A Tribuna”. Estive no “Primeira Hora”, fundado pelo Zaire, cuja finalidade era fazer a propaganda daquele candidato a prefeito de Uberlândia. Nele um talentoso menino chamado Maurício Ricardo encontrou tecnologia para publicar suas apreciadas tirinhas.
Antes de 1988, o CORREIO de Uberlândia era um “diário” que não circulava todos os santos dias. Certamente com apoio da diretoria, o Ivan lançou “O Domingo”, isto é, a edição dominical do CORREIO de Uberlândia. Para lá me chamou. E, num domingo de outubro de 1988, foi publicado “O desconfiômetro”, no qual eu recomendei um para o Newton Cardoso com um plugue anal bem grosso.
E assim, durante 20 anos, os leitores deste jornal me aturam sem falhar sequer uma semana. Pulando de jornal em jornal, jamais saí da sombra amiga do Ivan Santos, um jornalista de mão-cheia, um extraordinário cabra da peste das Alagoas.
Nota do editor:
Torço para que chegue a sexta-feira. Assim, tenho o prazer de passar os olhos pelas suas palavras. Seu Clarimundo, você é o cara! Obrigado por iluminar as páginas do CORREIO. E um outro obrigado ao seu Ivan Santos pelas aulas diárias de jornalismo.
Jorge Alexandre Araújo