
Recebi um e-mail aqui no CORREIO de uma pessoa que achava que me conhecia, que havia “trocado idéia” comigo há muitos anos pelo ICQ, uma espécie de irmão mais velho do MSN, e queria confirmar a informação. Até hoje eu sei de cor o número do meu ICQ, não era tão simples como criar um “nick” no Messenger, ou você salvava o número ou o anotava em algum lugar. Às vezes era mais difícil lembrar o login do que a senha.
Entrei novamente no programa, que até está mais moderno, para tentar me lembrar do rapaz, de Santos (SP). Como ele disse que tinha visto meu nome quando fez uma busca na web e encontrou uma matéria minha, procurei saber o que ele estava procurando. Poderia ser alguma reportagem com bandas gringas, alguma de peso no cenário nacional, mas não era.
Foi grande, e boa, minha surpresa quando ele falou que procurava por uma banda de Uberlândia chamada Beyond the Sanity, que ele viu há muito, muito tempo. Após deixá-lo atualizado sobre os passos de alguns integrantes da banda, também lamentei o fato de não ter nada deles disponível para audição no YouTube ou MySpace e seus equivalentes.
No cenário em que o Beyound the Sanity surgiu com seu doom metal, acho que era essa a definição mais acertada para a banda, a fita demo é que dava as cartas, aquela K7 que, com certeza, algumas pessoas aqui em Uberlândia e também em outras cidades devem ter guardada em uma gaveta ou caixa de sapatos.
Vasculhei minhas gavetas na casa dos meus pais e lá estavam elas. Catalogadas, empoeiradas e, por uma pequena amostragem, percebi que a maioria corre um sério risco de perda total. Achei também um fanzine do Underground Festival 96 original. O que significa: fotos reveladas em preto e branco coladas em folhas de papel sulfite que foram xerocadas posteriormente e distribuídas entre as bandas que fizeram parte do evento.
Toda essa história mostra que na internet quem procura acha e quem tem algo a mostrar só precisa encontrar o .com ou .net ou .mus certo para colocar a cara, ou a música, ou o filme. E, acredite ou não, em Uberlândia tem muita história para ser resgatada e contada quando o assunto é rock and roll.
Adreana Oliveira
Jornalista
adre@correiodeuberlandia.com.br


No próximo domingo acontece no Goma, em Uberlândia, aquele que foi batizado como “1o Uberlândia Hardcore”. É certo que este não é o primeiro encontro do estilo que acontece na cidade, salvo para aqueles nascidos em meados dos anos 90, mas é uma oportunidade para aqueles que são adeptos do faça você mesmo de várias épocas se reunirem e trocarem uma idéia sobre a situação na cidade e até mesmo resgatar a história do que é ser punk em Uberlândia.
Lembrei-me de uma conversa que tive há alguns anos com um ex-namorado sobre anarquia, punk e hardcore. Foi pouco tempo antes da morte de Marcelo Paulo de Freitas, conhecido como “Donald”, vocalista da banda paulista Gritando HC. Donald tinha hepatite. O cara era um exemplo por levar o hardcore como estilo de vida e isso depois de passar a barreira dos 20 anos.
É muito fácil fazer um moicano, arrepiar com a galera e andar de skate por aí, sem rumo, com um “A” cruzado estampado na camiseta rasgada quando se tem 14, 15 anos. O difícil é chegar aos 30 com o mesmo moicano levantado e entrar em qualquer escritório sem constrangimento.
Fora do meio musical, dos artistas tatuadores ou dos body-piercers é difícil achar um punk em qualquer lugar no Brasil. Nos grandes centros e principalmente na periferia paulista, alguns resistem com seus pequenos selos, fábricas caseiras de patch e até mesmo trabalhando em algumas fábricas. Lar de bandas como Olho Seco, Cólera e Ratos de Porão, com Brasília, terra do Aborto Elétrico, Cabelo Duro e Macakongs 2099, mantém o hardcore vivo, independentemente de estar ele na moda ou não.
Em Uberlândia, das bandas que vi ultimamente, as que melhor representam o hardcore local são Animais na Pista e FMI. Eles fazem o que há mais de uma década bandas como Lixo Social e SubUnderground faziam: um som tosco, puro, com severas críticas ao sistema e, às vezes, uma pitada de humor. O que se percebe é que existe uma dificuldade de relacionamento com outros estilos derivados do rock e o apoio do público também sempre deixa a desejar.
Para quem vai entrar neste universo vale lembrar que sem memória não há base que resista. Aqui, muito já se fez pelo underground que agonizou e ressurgiu incontáveis vezes. O coletivo é importante, mas ele só se torna realmente forte quando os membros que o compõem são individualmente íntegros e têm clareza de seus objetivos.
O “1o Hardcore Uberlândia” rola no Goma, a partir das 19h no domingo, dia 11. O ingresso custa R$ 5 até as 19h e R$ 6 após as 19h mais um pacote de macarrão, alimento que será doado à Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) de Uberlândia.